Quando a palavra escrita fala mais



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cortar o Tempo

(Carlos Drummond de Andrade)

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."


Renovação. Milagre. Outro número. Outra vontade. Acreditar que vai ser diferente. E vai. São as palavras de ordem para esse momento. 
2011 de fé e ação a todos, inclusive pra mim...
Mila

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Chuva, Música e Cuscuz



A chuva geralmente é associada a momentos de tristeza preexistentes ou mesmo originalmente atribuídos a ela. Por várias vezes tive alguma melancolia aprofundada pela chuva ou pelo tempo fechado. Para nós, do planalto central - e nossa típica escassez de chuva por longos meses ao ano – difícil se habituar a ela. Estamos acomodados ao céu azul e ao sol, luz, cor. A chuva, coitada, vive uma relação de amor e ódio conosco:

__ Hoje bem que 'podia' chover pra dar uma refrescada”.
__ Que raio de chuva que não passa! Me atrapalhou toda”.

__ Adoro ver a chuva caindo...”
__ Puxa...queria tomar um sol hoje e essa chuva que não passa!”.

A música, metaforicamente, também a usa com frequência ligando-a às inquietações da alma, à tempestade de emoções e dores, ao fim de relacionamentos e por aí vai...:

Você não sabe muito bem onde ir
Não tente me confundir
Quer chuva? Deixa rolar...
Afinal as nuvens estão ou não estão carregadas?"   
Capital Inicial

(ele):
___ Vai chover de novo,
deu na tv que o povo já se cansou de tanto o céu desabar,
E pede a um santo daqui que reza a ajuda de Deus,
mas nada pode fazer se a chuva quer é trazer você pra mim...
Vem cá que tá me dando uma vontade de chorar,
Não faz assim, não vá pra lá, meu coração vai se entregar à tempestade...
(ela):
___ Quem é você pra me chamar aqui se nada aconteceu?
Me diz, foi só amor ou medo de ficar sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher?
Você me parecia tão bem!
A chuva já passou por aqui, eu mesma que cuidei de secar...”
Los Hermanos (p/Maria Rita)

“Mas quando eu comecei a gostar de você
Você me abandonou
Agora chora que é bom, chorar que eu quero ver
Vai começar a chover
Só eu tenho um guarda chuva
Adivinha quem vai se molhar
Quem vai se molhar é você
Também posso chorar, e eu não volto atrás
Pois no meu guarda-chuva não te levo mais ...
"  Fernanda Porto - 'Dj Patife' (p/ Paula Lima)

Putz! Até o 'DJ Patife' sente com a chuva!

Há quem diga que a ciência já apontou que os níveis de serotonina de uma pessoa caem com o tempo chuvoso. Já dizia uma 'famosa' frase de caneca: “The rain and my serotonina levels are falling”.

Aos 20 anos de idade, mais ou menos, em um desses momentos 'in and under” de chuva, uma amiga me alertou:
__ A chuva provoca renovação, desde o amarelo seco que vira verde na natureza até o limpar da alma, após muitas gotas de água e de lágrimas”. Inesquecível.

Hoje o dia amanheceu chuvoso aqui na minha terra. Não clareava mesmo. Já eram 9 horas da manhã (com cara de 6) quando meu fone tocou:

__ Bom dia! O que você está fazendo?”
__ Estou revisando um texto”!
__ Venha aqui agora?!”
__ Posso passar aí às 10, quando sair para o trabalho?”
__ É que fiz um cuscuz com café. Tá quentinho”.

O benfeitor que me fez sentir o cheiro de café e cuscuz a 200m de distância é o Edson, amigo e vizinho. Prendado o rapaz. A primeira surpresa que tive com ele ocorreu poucos dias antes, quando revisávamos um dossiê de despedida da vida política de uma deputada federal goiana. Nessa ocasião, sentei-me pela primeira vez na varanda da minha casa, em construção. Eu, na cadeira de madeira, como uma boa grávida de 8 meses limitadíssima, e ele, acomodado em dois tijolos 'malarrumados'. Conversamos, descansamos do texto e vimos a paisagem. Depois, falamos de leite com farinha e de leite com abacate, confortantes, mas assunto para outro post.

Voltemos ao cuscuz.

Às 10 de hoje passei lá. Três ruas abaixo da minha e havíamos nos visitado somente 4 vezes no total, 7 anos de vizinhaço.
Mesa posta. Cuscuz quente. Outro vizinho junto, o Emerson. Três músicos juntos comendo cuscuz com café? Faltava o violão e ele não tardou.

...Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir
Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar...”    
(Nando Reis e Ana Cañas)
Eu errando a letra e o Edson apanhando do violão.

Daí para o Dalto (lembram do Dalto?) foi um pulo. Marina Lima, Roupa Nova e, finalmente, Beto Guedes e o seu belo setembro anunciando o sol de primavera.

Setembro já passou. O sol de primavera também. Agora é chuva e ela estava ali, presente, testemunhando uma manhã despretensiosa, com ares de tristeza imediatamente transformada em amizade e leveza. Presentes de Deus eles, o violão, o cuscuz, o café, a chuva. As palavras do Beto também. Transformo-as:

Quando entrar janeiro e a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou, juntos outra vez
Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar...
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer
Chuva de verão... abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor,
só nos resta aprender... “

O renovo está aí. Os frutos, o perdão, o crescimento no que falta sonhar, a chuva. 
Meu filho nascerá com ela e eu a apreciarei, com ele nos braços, deitados na rede da varanda do quarto.

A lição, reforçada pela chuva de hoje, eu sei de cor, só me resta aprender...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Muuuuito Grávida


Amigos,

as fotos da minha gravidez estão no link ASSUNTOS - "Muuuuuito Grávida" -, aba lateral direita do blog.
Espero que gostem.
 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ausência



" Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausta.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

(Vinícius de Moraes)

Amigos, ausento-me daqui e de tudo por um tempo. Preciso curar feridas, preparar-me para o meu bebê que chega, amá-lo mais que tudo na vida, mais que a mim mesma e a meus devaneios. Dar-me a ele. Este blog não é um espaço de lágrimas, mas de experimentos positivos e realizações. Voltarei assim, realizando e realizada. Amo vocês. 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Receita



Sei que não há receitas para um monte de coisas, mas pode haver para algumas.

Uma delas me foi apresentada ontem, por meio de um e-mail singelo e profundo de uma amiga que me quer tão bem, mas tão bem, que sinto vergonha de não me querer tanto assim.

A receita aparentemente é culinária, mas o efeito pretendido pretere a cozinha na intenção, talvez, de ajudar-me a fazer as pazes comigo mesma. Não se separa um momento desses -  dedicado, à beira do fogão, à meia luz, temperatura amena, paisagem convidativa, música baixa, com confusão de colheres e coisas caindo no chão - de um inundar de alma.

Gosto da cozinha, apesar de frequentá-la pouco, e a receita de amizade será reproduzida, exatamente como me foi passada:

"Lourdes,
Quando tô chateada gosto de ir pra cozinha me distrair. Hoje fiz uma receita que ficou muito boa! Quando eu for pra GYN vou cozinhar pra vc. Mas, antes disso, faz porque vc vai gostar.

É fidelinho com molho de abobrinha. 

Frita uns pedacinhos de bacon, depois coloca tomates picadinhos, sem pele e sementes, na panela. Daí, quando tiver um molho grosso, coloca uma abobrinha ralada (não rale o miolo, não, só a parte de fora...depois, é claro, de raspar a casca!). Tampe e deixe uns minutos, até cozinhar a abobrinha. Depois, acrescente um pote de requeijão cremoso e cebolinha verde. E misture com o macarrão de sua preferência (o fidelinho fica melhor).

Pode acreditar, fica bom de verdade! Faz e depois me conta o resultado. Pelo menos vc vai se distrair.
Bjo"

Não poderia haver receita melhor de amizade e atenção. Não poderia haver melhor intenção e pureza nisso. Farei a receita (posso evitar o bacon, Mari?) e a cada nuance de cheiro me lembrarei da graça de tê-la como amiga. Graça, em todos os sentidos!








































































quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Eu, de bengalas

"Caminhos

Tem sempre presente
que a pele se enruga,
o cabelo se torna branco,
que os dias se convertem em anos,
mas o mais importante não muda!
Tua força interior e tuas convicções não têm idade.
Teu espírito é o espanador de qualquer teia de aranha.
Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.
Atrás de cada triunfo, há outro desafio.
Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo.
Se sentes saudades do que fazias, torna a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amareladas.
Continua, apesar de todos esperarem que abandones.
Não deixes que se enferruje o ferro que há em você.
Faz com que em lugar de pena, te respeitem.
Quando pelos anos não consigas correr, trota.
Quando não possas trotar, caminha.
Quando não possas caminhar, usa bengala.
Mas nunca te detenhas!"

Madre Tereza de Calcutá


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Visitando Belém

 
Não é uma história sobre Belém de Jesus, Cisjordânia – “Casa da Carne” – , até porque a casa é de peixe, muito peixe. Mas Jesus tem muito a ver com isso tudo.

Não conhecia o norte do país. Não posso dizer que o conheço ainda, mas um pedaço dele se eternizou em mim. A ida a essa Belém (“o melhor lugar do mundo para a Ludmila”, diz um colega) foi mais que esperada e desejada, há muito. O sonho ficou suspenso e até esquecido. Por um bom tempo, verdade, deixou de ser sonho.

Voltei a pensá-la.

Belém de vastos rios que, de tão grandes, mares. Das praças banhadas, do picolé Cairu, da tapioca com coco ralado grosso, real. Das calçadas por fazer, dos entulhos de construção jogados por toda parte – esses, sim, feitos, paisagem obrigatória da cidade. Das Docas que fazem a música flutuar teto afora, do Ver o Peso que somente de longe vi.

De onde se misturam, no mesmo espaço territorial, ricos e pobres, com a costumeira separação. Otimismo demais pensar que não. 

Belém da chuva da tarde, de não mais que uma hora, suficiente pra avultar a espera.

Belém das mangueiras que sequer percebi. Estava ofuscada pela minha própria mira, por demais direcionada. Experimentei e vivi. Estudei. Estudaram-me. Deixei-me viver. Chorei. Desisti por segundos. Desisti novamente – de desistir. E vi a Belém de pessoas e as amei. Visão minha que prescinde das demais.

Quisera eu ter o poder de fazer e desfazer, dispor e indispor. Possível, mas não quando se ama. ‘Quisera eu’... Apenas visitei a minha alma, pra que pudesse estar com a minha maior aliada: eu mesma.

Sinto o gosto de coisas das quais me sinto parte. Gosto de coisa uníssona, na confusão e beleza do plural. De poder distinguir o que difere o impossível do possível – determinação, doação. Coisas de quem esteja começando a se preocupar em amar com mais qualidade. Espero, um dia.


 Blog Olhares. Foto Ney Marcondes.

"Bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia... O triunfo pertence a quem se atreve". Charles Chaplin


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Zerando?

 

Então é que anteontem notei que as palavras muitas vezes passam despercebidas pelo seu uso rotineiro ou pela falta de profundidade a elas dispensada. Mas vindas de quem nos ama, o peso é outro e faz pensar. E como também pretendo 'amar de verdade' um dia (o que significa, entre outras coisas, compreender e ser compreendida), tudo sobre o tema tem peso, até o vazio e o zero. Aliás, principalmente isso. 
"Vamos zerar?". De fato o ‘zero’ parece ser um bom (re)começo. É assim na ordem dos números, na ordem biológica, quando somos – ou nem somos – e passamos a ser. Do zero à massa disforme. Também é assim na ordem da teoria criacionista, da qual compactuo. “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia. E o mundo se fez” (Gênesis, 1:3). Mas na vida que já exsurge lá de trás e inevitavelmente vai – adiante, quero dizer, pois o tema aqui não é morte, mas vida - não é assim

A ideia é boa, como num jogo de videogame, um simulador de vida. O objetivo é atingir as metas propostas – sucesso, carreira, o grande amor, a família ‘perfeita’. Não dando certo, zera-se. Cria-se outra vida para fazer o que quiser com ela. E como no jogo virtual, há os que se projetam na vida virtual. Nela tudo é possível, a conquista fácil, o esquecimento do passado, o estalar de dedos, os sonhos impossíveis, o abandonar de tudo, a aparição imediata do paraíso, sem construção. Construir não cabe nesse mundo imaginário, mas é necessário do mundo real. E eu vivo nele, com alguma pitada de virtual possível, que é pra não perder o foco sem deixar de pretender.

E voltando à necessidade de aprender a amar, a ideia de zerar é de certa forma sufocante, pois reflete a angústia por vezes colocada em uma lente de aumento ante a nossa incapacidade de compreender que a vida não começa agora, ainda que queiramos. A marcha-ré que tentamos impor à nossa história não zera o tempo, apenas o retoma de algum ponto para que caibamos no mundo e ele em nós. 

Retomemos, então. Recomeçar, sim, de algum ponto em nós, com o pouco que temos ou o muito de sensações e experiências. Reinventar, segundo Lispector. Reconstruir, idem.  Readaptar. Vida nova a partir do repensar e refazer da velha, com o aprendizado fruto da nossa história. Zerar, nesse mundo... dá não. Partir para o novo, sim. Em companhia? coisa ainda melhor.

Só há um ponto fixo: A nossa própria insuficiência. 
E daí é que precisamos partir.
Franz Kafka
 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Transgressões


O conceito de transgressão ganha contornos em um mundo onde não há, aparentemente, espaço para os riscos. Difícil a medida entre arriscar-se inutilmente e arriscar-se necessariamente. Depende da nossa história, da nossa zona de conforto, ainda que não seja tão confortável assim. Não nos damos conta da nossa morte, estando aparentemente vivos. Arriscar-se ao sim e, às vezes, ao não. O outro conta muito, quando se arrisca a dois; os propósitos também, e a balança.

Sobre o tema, deixo-o pra Lya. As críticas são muitas: "simplista com as palavras". Mas os destinatários da autora também são simples, como eu, e complexos, ao mesmo tempo. Pensadora da própria vida e da vida em geral, mas se distancia da filosofia, de fato. É acessível, direta. Chama à realidade. Abro um espaço para um de seus textos, que calha com o meu momento, com a necessária inquietação.
Bem-vinda, Lya-Luft.

PENSAR É TRANSGREDIR

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. 

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

domingo, 5 de setembro de 2010

Meu Mundo e Nada Mais


Diz-se muito que “quando não se vai pelo amor, vai-se pela dor”. Já aceitei o fato de que sou uma pessoa que sente as duas coisas sempre, e vou pelos dois. Só assim descubro, mudo, reformulo, junto os restos.  

A música, de uma forma geral (mais que os filmes), faz latejar em mim essa reflexão sobre amor e dor  que caracteriza a vida da maioria das pessoas. Algumas dão a sensação de que o compositor invadiu a sua casa, fuçou nas suas coisas, tirou uma ‘chapa’ do seu peito e fez a obra sobre o seu momento de vida.

__  “Puxa, por que não fui eu quem escreveu isso?” 

Porque não tenho a capacidade de musicar e letrar a vida em versos, apenas de senti-la, cantá-la e arriscar-me na prosa. 

O Guilherme Arantes tem. Ele é um desses que entram na vida das pessoas e musicam os sentimentos, fazendo parecer que esteve ali, dentro de nós, segundos antes.

A música a seguir é uma das minhas chapas de raio-x da hora. Como todo exame perde a validade em 3 meses, vejamos se daqui a 3 ainda estarei para Guilherme ou para Baleiro. Hoje, porém, tudo em mim é G.A., e essa uma noite à meia-noite, à meia-luz, pensando em como ser mais livre, como ser capaz de enxergar um novo dia... Vale a pena amar e sentir dor com tal cereja musical, que divido com vocês.
Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia...

Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo, estou  mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando...
Daria tudo, por um modo de esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando....
Daria tudo, por meu mundo e nada mais...

Não estou bem certo
Que ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura...

Como ser mais livre
Como ser capaz
De enxergar um novo dia...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo, estou  mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando...
Daria tudo, por um modo de esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando....
Daria tudo, por meu mundo e nada mais...

sábado, 28 de agosto de 2010

Ela É Ele


Não está errado. O título do post é  "Ela  É  (do verbo  ser) Ele". 

Dizem que esse médico de Goiânia não erra. É dizê-lo Deus, mas eu acreditei. Não irei expô-lo, afinal, faço mea culpa.

___ 80% . Quer saber?
___ Quero. [eis a mea culpa]
___ Menina.
___ (!!!!!)

Mais de um mês me acostumando com a ideia, reformulando as expectativas, baixando arquivos de quartos lilás, medindo o espaço do guarda-roupas do quarto em obras e pensando em como trançar um cabelo, afinal, não me imaginava mãe de menina. Já havia externado esse medo por aqui.

___ Eu te disse daquela vez o sexo?
___ Indicou 80% de chance, mas não vou lembrá-lo qual.
___ 80%?  Eu disse menino, né?

Silêncio. Samuel me olha. Minha mãe congela. Tento quebrar o clima:

___ Menino?
___ Sim, um garotão. Não foi isso que eu disse da outra vez?
___ Não! Você disse menina!
___ Erramos....
___ Erramos não. Você errou! [pesei o clima]
___ É, errei.

Samuel se recusa:

___ Tem certeza? Eu tenho um amigo, o Danilo, que nasceu homem e era pra ser mulher. Só na hora de nascer é que viu que era homem (criança adora contar histórias nomeando o amigo ou a menina vizinha do primo que um dia teve uma cachorra que nasceu com uma verruga gigante que, na verdade, era um umbigo e que de dentro saía um bicho enorme, branco, com uma gosma amarela ................). Será que não é a posição aí que tá fazendo achar que é homem?

___ Samuel,  é Samuel, né?
___ Anham...
___ Então, Samuel, isso aqui [aponta na tela do monitor] é pinto. Isso é pinto!

Minha mãe arremata, já desolada, atingida pelo golpe mortal:

___ Tá bom, gente... o importante é que venha com saúde....
(A frase não poderia retratar melhor a frustração).

Eu sorria, desconcertada.

A casa está em obras. Eu estou em obras. Minha cabeça e meu corpo estão em obras, quem sabe de Deus.

O quarto que seria dela é dele, sempre foi. E tudo mais, daqui pra frente.

Estou te esperando, meninão!  


(E como diria um colega de trabalho, ao saber da odisseia do sexo do meu bebê, "é melhor mudar de sexo enquanto está dentro da barriga. Depois que sai, é bem mais triste". HTCF)
 


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Fé em Deus, pé na tábua


Sou cristã. Essa declaração é necessária, já de cara, sem medo, sem vergonha. "Nossa... uma moça tão inteligente, estudada, viajada, esclarecida...". Isso mesmo. Sou cristã por tudo isso que dizem de mim e por muito mais. E sou pecadora. Erro 'demaaaaaais da conta', como dizem os da minha terra. Sou cristã por convicção e experimentos diversos com Deus, e não por uma necessidade do ser humano em acreditar em alguma coisa para que a vida e as dores façam algum sentido.

Sou cristã pela graça de sentir o perdão e o apoio diário de Jesus em minha vida, apesar de mim. Ainda que se discorra e faça algum sentido lógico de que o homem é quem teria criado Deus, e não o contrário, essa lógica, pra mim, cada vez mais cede lugar à pessoalidade que tenho com Deus. E sou cristã também em razão dessa mesma lógica. 

Aos meus amados amigos, familiares e colegas cristãos - e aos ainda mais amados amigos, familiares e colegas não cristãos - posto essa série de textos de fé na página FÉ EM DEUS, PÉ NA TÁBUA (coluna direita do blog), todos com embasamento bíblico, que muito têm significado e ressignificado a minha vida, diariamente. Eu os leio e os releio. Sinto a renovação, a esperança. Sinto Deus em minha vida ontem e hoje e agora. Espero que cada amigo leitor também O sinta. 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Eu e Ela


Parte I – o sexo

O sexo ainda é incerto. Pelas características – dois risquinhos ali, apesar da protuberância aqui, que pode ser um pipiu ou um miniclitóris – o bebê seria uma garotinha. Já andei dizendo por aí que talvez não saiba ser mãe de menina: maria-chiquinha no cabelo, colarzinho, milhares de pulseirinhas coloridas (verde-limão inclusive? precisa?), as cores-de-rosa, o desembaraçar de cabelos, que, com certeza, será liso... o amor me ensinará a fazer tudo isso e o sorrisinho irá compensar o rosa-choque e o verde-limão, se ele for ela.

Parte II – a música

A música do Vander Lee – eu também não o conhecia – num primeiro momento me remeteu ao amor interrompido. Após, à renovação, ‘ao poema que acenou pra inventar um outro amor’, o amor chamado pela sede, revelado pela noite. O amor vivido por ‘eu e ela’. Eu e a sede. Eu e a noite. Eu e a minha criança.

Aqui está esse belo poema que me surpreendeu pela simplicidade e beleza.


Eu e Ela
Composição e Interpretação: Vander Lee

Gotas de amor, girassol
Mares de sal, beijo floral
Pra falar nesse tempo, qual?


Do ventre exposto ao sol
Das flores postas no postal
Quantas caras nesse jornal


Foi quando a sede chamou
Pra acordar nosso amor
Fiz um tema na mão dela


Já fez calor, temporal
Você sem mim, tudo tão igual
Tudo bem, mas estou bem mal


Na TV não tem canal
Seu brilho tão sem meu cristal
Só tem música em meu dial


Mas o poema acenou
Pra acordar nosso amor

Quando a noite me revela
 

Sou eu e ela, eu e ela, eu e ela...

Já fez calor, temporal
Você sem mim, tudo tão igual
Tudo bem, vou ficar legal


Se a TV não tem canal
Seu brilho não tem meu cristal
Só tem música em meu dial


Mas o poema acenou
Pra inventar um outro amor

Quando a noite me revela
 

Sou eu e ela, eu e ela, eu e ela...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Centreando


Interessante como tudo se ressignifica a partir de um mero acontecimento, não tão estreme assim, verdade.

O centro de Goiânia nunca foi meu forte. Quarteirões populosos voltados para compras e sem estacionamento em geral passam longe de mim, a menos que tenham charme, e isso eu nunca consegui enxergar no centro da cidade. De fato, ele não é charmoso, é mais.

Comecei essa descoberta acidentalmente, quando me propus a revisar a brilhante dissertação de mestrado de uma amiga (ou a dissertação de mestrado de uma brilhante amiga, porque uma coisa redunda na outra). Minha deformidade profissional não me deixava enxergar além do patrimônio art decó do centrão apavorante, moldado em cimento e traços. Era só isso que via e protegia.

A história do centro planejado da cidade, outrora elitista e concebido para tanto, se choca e entrelaça com a história da vizinha Vila Nova e do Leste Universitário, bairros emergidos da dinâmica dos que construíram a cena principal e à margem dela viveram por um tempo.

As relações sociais eram bem ilustradas por essa cena aqui: na rua 8, homens de um lado e mulheres do outro. Todos filhos ou amigos dos filhos dos coronéis, políticos e outras pessoas influentes da época, gente finíssima... Elas desfilavam de uma ponta a outra. Eles observavam e escolhiam. Quase um mercado, mas há quem diga e acredite que isso era bem excitante. Meus pais, por exemplo.

Mas o centro hoje pertence aos goianienses que não desistiram dele e o transformaram na representação viva da cidade. A lealdade e bravura dos que ali vivem em meio a buzinas, fumaça e metrobus impressionam. A atratividade democrática do lugar ainda abriga a memória elitista da capital e simultaneamente proporciona a satisfação da necessidade dos que cobrem a família com 5 peças de roupa por 20 contos. Onde mais nessa cidade pode-se conviver com prédios históricos, estilo arquitetônico marcante, camelódromos, pastel frito na hora, lojas de departamento e eletrodomésticos, raízes de tudo quanto há, farinha de mandioca, polvilho, busão, pessoas interessantes e sebos?

Pessoas interessantes e sebos. Foi aí que vi que já tinha observado o centro antes. 
__ Moro em frente aos sebos da Rua 4. 
__ Sei onde é!

 

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Re-inventando


Um monte de gente se queixa de que quando fica 'pobre', os 'amigos' somem; fez besteira? acusação. Está frágil, crítica dos colegas. Comigo tem sido diferente. Estou pobre, besta, frágil, imprestável e há quem me queira por perto, sempre, de todas as formas, gratuitamente.
É o caso dessa criatura aqui, que me mandou esse poema lindo da Cecília Meireles. Obrigada, Márcia. Quero ser pobre, besta, frágil, imprestável, desde que eu tenha a oportunidade de fazer parte da sua caminhada e você da minha. Só assim, ao lado desses adoráveis loucos, é que sou capaz de reinventar a vida.

Reinvenção
A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança...
Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só - na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.


(Cecília Meireles)

domingo, 13 de junho de 2010

Enamorados


Vida engraçada, inesperada. Depois de muito vai-e-vem, decidi e, finalmente,  consegui  sair da toca ontem. Contra todas as expectativas, a noite dos namorados foi perfeita. O Roupa Nova - ao vivo - ajudou bastante para escrever essa coisa simples aqui.

"A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa entender que um amor de verdade
É feito canção, qualquer coisa assim
Que tem seu começo, seu meio, seu fim
A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa aprender a começar de novo
É como tocar o mesmo violão
E nele compor uma nova canção
Que fale de amor, que faça chorar
Que toque mais forte esse meu coração...
Ah, coração se apronta pra recomeçar
Ah, coração e esquece esse medo de amar de novo".

A roupa de hoje não é nova. O sapato também não. O coração, esse sim, se aprontando pra recomeçar. 

Feliz dia dos namorados aos que se dedicam à difícil e prazerosa tarefa de amar.

   

sábado, 12 de junho de 2010

Meu Plano B



 “Apaixonar-se. Casar-se. Ter um filho. Não necessariamente nessa ordem.”

A frase se remete a um filme lançado esta semana nos cinemas de todo o mundo – Plano B (The Back-up Plan) – mas essa ‘desordem’ das coisas vai além da ficção. A vida real também prega essas peças e nós damos uma mãozinha.

Diante dessa inversão, nos vemos perdidos. Não estamos preparados para outros rumos, por mais que nos autodenominemos de 'modernos' e 'adaptáveis'. Fomos culturalmente adestrados para a ordem, inquestionável ordem. Somos treinados para o desconfigurável e só assim sabemos viver. O que foge disso traz confusão, covardia, choro; desespero; rejeição.

Mas a desordem vem, uma hora ou outra, e se não a enfrentamos, nos negamos - deliberadamente - a crescer.
A principal descoberta nesse caos aparente é a de que também somos conduzidos pelas nossas vidas, e não o contrário. Somos só parte dela e do que está em volta. Estamos apenas no meio da correnteza. Não somos o rio. E, contraditoriamente, é exatamente aí que temos de decidir pegar o remo, reconduzir, nos posicionar, refazer.

A ordem das coisas inicialmente programada - o Plano A - e os anos de expectativas e projetos são invertidos ou mesmo dissipados. De um segundo ao outro a ordem é:  reprograme-se. Mas temos os nossos ao nosso lado. Temos Ele, Deus. E nos damos conta de que há outras vogais e consoantes para os planos da nossa vida: Plano C, de Capacidade e Coragem; o Plano M, de Maturidade, o Plano D, de Determinação e Dom de reinventar, girar, gerar.

Temos os nossos planos. Deus tem o Dele. No final, 'dará tudo certo' (diz uma amiga), no filme e na vida real, porque 'a vida não é norma, a vida é vida'.


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Pra Voce Guardei O Amor (Clipe Oficial) - Nando Reis e Ana Canas -

Ando muito chique ultimamente. Twitto com a Ana Cañas! E ela mesma nos mandou o link para acesso ao vídeo oficial de "Pra você guardei o amor".  A música doa e esbanja amor, sem reservas. E já é pedaço de um pedaço de mim.

Assista ao clipe clicando no link
http://bit.ly/aSeLo8


domingo, 6 de junho de 2010

Primaveras

 
  
"Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira"
(Cecília Meireles)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Nós de Nós dois




Poucas pessoas sabem dar de si. As mesmas poucas sabem se querer de vez. E ficam 'sós, laçadas em dois nós'. Sem cantar e contar o outro. Sem se rimar no colo. Sem vencer a vida. A música diz tudo sobre esse momento. Desfaçamos os nós.


"
E nós que nem sabemos quanto nos queremos
Que nem sabemos tudo que queremos
Como é difícil o desejo de amar


Você que nem me soube quanto eu quis
Que não coube, não me viu raiz
Nascendo, crescendo nos terrenos seus


Eu da janela olhando a lua, perguntando à lua
Onde você foi amar?


E nós que nem soubemos nos querer de vez
Estamos sós, laçados em dois nós
Um que é meu beijo o outro é o lábio seu


Não sei sair cantando sem contar você
Que eu sei cantar, mas conto com você
Que eu vou seguir, mas vou seguir você


Queria que assim sabendo se a gente se quer
Queria me rimar no seu colo, mulher
Vencer a vida donde ela vier


Ganhar seu
Chegar no chegar meu
Dar de mim o homem que é seu...  "

(Celso Adolfo) 

 

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Eu a respeito, Helen Fischer, mas vou de Calcanhoto.

-->


“E se o amor tivesse uma cor, seria a sua
Se fosse branca a cor, seria a mais bela das luas’
Ana Carolina

A emoção de amar (? - achar que se ama)faz nascer frases como estas. Ou seria “a sensação de amar”? ou “o  sentimento de amar?” Tanto faz. Sou dada às emoções, às sensações e aos sentimentos.

A tentativa de conceituar amor, pra mim, é ingênua. Diferenciá-lo de paixão, então, coisa mais besta ainda. Sentimento, sensação, emoção, êxtase, delírio, euforia? Efêmero, duradouro, calmo, intenso? Paz, ansiedade, harmonia, tristeza, realização, frustração, vulnerabilidade, projetos, capricho, inconsciência, leveza, dor, razão, refazimento. Proteção, legado, ilusão, realidade. Amor ou paixão? F...it!   

A diferença só existe do ponto de vista fisiológico ou antropomórfico que só interessa aos estudiosos dos comportamentos romântico-afetivos. Não sou uma estudiosa do amor/paixão, sou uma vivente.

A “sensação” inebriante provocada por descargas bioquímicas com consequente produção de feniletilamina, blá, blá, blá, chamadas exclusivamente de ‘paixão’, podem ser traduzidas por mim, assim: “que coisa boa!”. Tempos depois: “que paz!" E se for o caso: “que merda, mas obrigada. Estou viva!”

“Nesse período, pouco importa a personalidade de cada um, caem as defesas, o raciocínio temporariamente suprimido para muitas análises no que se refere ao outro se torna oblíquo e viesado, hiperdimensionando suas qualidades e subestimando suas falhas” .

A explicação sobre a ‘fase da paixão’ é da antropóloga da Universidade Rutgers e autora do livro “Anatomia do amor”, Helen Fisher (ah, cara Helen Fisher, você não sabe, mas nós duas temos uma história...), que demonstrou que os sintomas provocados por ela - paixão -, como a euforia, a falta de sono, ou ainda, de apetite, estão associados a altos níveis de dopamina e norepinefrina, estimulantes naturais do cérebro. A doutora advoga ainda a tese de que o amor pode estar não-associado à procriação. Dessa forma, os homens passaram realmente a amar as mulheres, não como mera reprodutoras, e algumas destas passaram a olhar os homens como algo mais além de provedores para o sustente de si mesmas e de suas proles.  Boa, Helen!
 
O amor, por outro lado, diz ser associado com a sensação de calmaria, harmonia, segurança, ausência de rompantes de emoção, cotidiano, organização... Quem quer isso sempre? Quem consegue ser feliz assim sempre?

Fato é que tendo a sentir. Já senti amor por um dia. E já me apaixonei por 5 anos (de forma iludida, muito iludida e arrependida, é verdade), mas contrariando a teoria de que dificilmente a paixão dura mais que 24 meses e de que o amor é fruto do tempo. Sou apaixonada pela mesma criatura há 13 e serei para sempre (mas filho não vale; ok. Por que não vale?). Tenho buscado amar há pouco mais de 38 anos - amigos, pais, irmãos, pessoas e uma pessoa que espero um dia encontrar -, hiperdimensionando qualidades e tentando subestimar falhas. E a busca por amar já não seria amor?

E dizem que o equilíbrio é o segredo de tudo. Não. O segredo é a determinação. E estar feliz com alguém envolve basicamente isso. E envolve as afinidades, mas me atraio pelas boas diferenças (isso exclui música sertaneja e axé). Encanto-me com a alegria e reflito com o choro. Fico eufórica com as expectativas e me acalmo com os projetos realizados. Gosto de rir sozinha. Melhor a dois. Divergir, afastar e fazer as pazes com a consciência da melhora, idem. Recuar quando avançar não depende só de mim: praxe. Amor? Paixão?

Eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”. Boa, Calcanhoto!