Quando a palavra escrita fala mais



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Chuva, Música e Cuscuz



A chuva geralmente é associada a momentos de tristeza preexistentes ou mesmo originalmente atribuídos a ela. Por várias vezes tive alguma melancolia aprofundada pela chuva ou pelo tempo fechado. Para nós, do planalto central - e nossa típica escassez de chuva por longos meses ao ano – difícil se habituar a ela. Estamos acomodados ao céu azul e ao sol, luz, cor. A chuva, coitada, vive uma relação de amor e ódio conosco:

__ Hoje bem que 'podia' chover pra dar uma refrescada”.
__ Que raio de chuva que não passa! Me atrapalhou toda”.

__ Adoro ver a chuva caindo...”
__ Puxa...queria tomar um sol hoje e essa chuva que não passa!”.

A música, metaforicamente, também a usa com frequência ligando-a às inquietações da alma, à tempestade de emoções e dores, ao fim de relacionamentos e por aí vai...:

Você não sabe muito bem onde ir
Não tente me confundir
Quer chuva? Deixa rolar...
Afinal as nuvens estão ou não estão carregadas?"   
Capital Inicial

(ele):
___ Vai chover de novo,
deu na tv que o povo já se cansou de tanto o céu desabar,
E pede a um santo daqui que reza a ajuda de Deus,
mas nada pode fazer se a chuva quer é trazer você pra mim...
Vem cá que tá me dando uma vontade de chorar,
Não faz assim, não vá pra lá, meu coração vai se entregar à tempestade...
(ela):
___ Quem é você pra me chamar aqui se nada aconteceu?
Me diz, foi só amor ou medo de ficar sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher?
Você me parecia tão bem!
A chuva já passou por aqui, eu mesma que cuidei de secar...”
Los Hermanos (p/Maria Rita)

“Mas quando eu comecei a gostar de você
Você me abandonou
Agora chora que é bom, chorar que eu quero ver
Vai começar a chover
Só eu tenho um guarda chuva
Adivinha quem vai se molhar
Quem vai se molhar é você
Também posso chorar, e eu não volto atrás
Pois no meu guarda-chuva não te levo mais ...
"  Fernanda Porto - 'Dj Patife' (p/ Paula Lima)

Putz! Até o 'DJ Patife' sente com a chuva!

Há quem diga que a ciência já apontou que os níveis de serotonina de uma pessoa caem com o tempo chuvoso. Já dizia uma 'famosa' frase de caneca: “The rain and my serotonina levels are falling”.

Aos 20 anos de idade, mais ou menos, em um desses momentos 'in and under” de chuva, uma amiga me alertou:
__ A chuva provoca renovação, desde o amarelo seco que vira verde na natureza até o limpar da alma, após muitas gotas de água e de lágrimas”. Inesquecível.

Hoje o dia amanheceu chuvoso aqui na minha terra. Não clareava mesmo. Já eram 9 horas da manhã (com cara de 6) quando meu fone tocou:

__ Bom dia! O que você está fazendo?”
__ Estou revisando um texto”!
__ Venha aqui agora?!”
__ Posso passar aí às 10, quando sair para o trabalho?”
__ É que fiz um cuscuz com café. Tá quentinho”.

O benfeitor que me fez sentir o cheiro de café e cuscuz a 200m de distância é o Edson, amigo e vizinho. Prendado o rapaz. A primeira surpresa que tive com ele ocorreu poucos dias antes, quando revisávamos um dossiê de despedida da vida política de uma deputada federal goiana. Nessa ocasião, sentei-me pela primeira vez na varanda da minha casa, em construção. Eu, na cadeira de madeira, como uma boa grávida de 8 meses limitadíssima, e ele, acomodado em dois tijolos 'malarrumados'. Conversamos, descansamos do texto e vimos a paisagem. Depois, falamos de leite com farinha e de leite com abacate, confortantes, mas assunto para outro post.

Voltemos ao cuscuz.

Às 10 de hoje passei lá. Três ruas abaixo da minha e havíamos nos visitado somente 4 vezes no total, 7 anos de vizinhaço.
Mesa posta. Cuscuz quente. Outro vizinho junto, o Emerson. Três músicos juntos comendo cuscuz com café? Faltava o violão e ele não tardou.

...Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir
Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar...”    
(Nando Reis e Ana Cañas)
Eu errando a letra e o Edson apanhando do violão.

Daí para o Dalto (lembram do Dalto?) foi um pulo. Marina Lima, Roupa Nova e, finalmente, Beto Guedes e o seu belo setembro anunciando o sol de primavera.

Setembro já passou. O sol de primavera também. Agora é chuva e ela estava ali, presente, testemunhando uma manhã despretensiosa, com ares de tristeza imediatamente transformada em amizade e leveza. Presentes de Deus eles, o violão, o cuscuz, o café, a chuva. As palavras do Beto também. Transformo-as:

Quando entrar janeiro e a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou, juntos outra vez
Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar...
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer
Chuva de verão... abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor,
só nos resta aprender... “

O renovo está aí. Os frutos, o perdão, o crescimento no que falta sonhar, a chuva. 
Meu filho nascerá com ela e eu a apreciarei, com ele nos braços, deitados na rede da varanda do quarto.

A lição, reforçada pela chuva de hoje, eu sei de cor, só me resta aprender...

3 comentários:

Anônimo disse...

Lourdes, você esqueceu simplesmente a melhor:


Raindrops keep falling on my head
And just like the guy
Whose feet are too big for his bed
Nothing seems to fit
Those raindrops keep falling on my head
They keep falling
So I just did me some talking to the sun
And I said I didn't like
The way he got things done:
Sleeping on the job
Those raindrops keep falling on my head
They keep falling
But there's one thing, I know,
The blues they sent to meet me
Won't defeat me;
It won't be long
Till happiness steps up to greet me
Raindrops keep falling on my head,
But that doesn't mean
My eyes will soon be turning red
Crying's not for me
Cause I'm never gonna stop the rain
By complaining
Because I'm free,
Nothing's worrying me!
It won't be long,
Till happiness steps up to greet me.

Te adoro. Saudades...
Mari

Edson Quaresma disse...

... e pode crer: enquanto houver fubá, chuva e água quente laços de amizade e amor serão construídos ao som de vozes e instrumentos, reunidos em torno da vida!

Milena disse...

Lu, lindo o texto. Me fez pensar com as músicas e a imagem da chuva no quanto temos que amar melhor e refazer a todo instante, como o tempo e a chuva. Felicidades a você, a seu bebê e ao papai dele, Lu, vocês merecem. Mi. Aaa, suas fotos estão belas. Grávida linda!