Prestes a encontrar-me
com o fim do ano, a expectativa me conduz à necessidade de alguma
análise e me volve aos anos 80, quando eu achava que detinha qualquer
autonomia e que o futuro seria inevitavelmente
'bem-sucedido', sem saber, obviamente, o significado real disso, além
de um certo conforto financeiro e de alma.
Precocemente, desde
aquela década, sofri e sorri intensamente. E para quem acha que
não se deve “arrepender do que fez, mas do que não fez” (pra
mim o pior bordão já dito, além de brega), digo, sim, arrependi-me,
e se pudesse voltar atrás teria feito diferente, dito mais 'nãos',
evitado algumas pessoas (leia-se muitas),
mas vivido com alguma intensidade, ou não seria eu.
De tudo, fica que a
vida que desejei conduzir – o contrário é ainda mais pobre –
distanciou-se muito da vivida e somente este ano pude de fato
experimentar o verdadeiro tudo (verdadeiro para mim, obviamente): um pouco de encontro
entre o discurso e a prática, o grande encontro entre uma mãe e um filho,
o encontro com o amor. E complementando a ideia do parágrafo
anterior, teria esperado, me esperado, nos esperado, mas a vida não foi - não é - assim.
A polissemia da vida - seja a desejada, seja a vivida -
abre-se para a polissemia do amor, ainda não totalmente
compreendido, levando-me a indagar sobre qual a relação entre o
discurso que ele, amor, profere, e o lugar que de fato ocupa na vida
das pessoas, sua essencialidade. Mais: qual a relação entre alguém
que acreditamos amar e o objeto (cruamente, 'objeto' mesmo)
do nosso amor. Entre mim e coisa; entre coisa e mim. Qual?
A maior descoberta
concretiza-se agora, ao finalmente banir o discurso ideológico
“envolvente, convincente, mas cheio de vazios” (Chaui) e
entender a importância da harmonia entre palavras e ações, o
verbo e o acontecer, o moderno e o tradicional, a
existência e a resistência, a singularidade e as condições
em torno dela, o individual e o coletivo, o ideal e o real, o hoje e o ontem, a vivência e o
caminhar, a liberdade e o respeito, o medo e o passo a ser dado, o que já se viveu e a exclusividade do que há por vir, o planejado e o vivido, a 'norma e a vida' (nas palavras de Pelá), entre o que
se autodenomina de 'pouco' e que me complementa ricamente, e como complementa...
Não precisam ser antagônicos, apesar da dicotomia apresentada no texto, não precisam mesmo.
Não precisam ser antagônicos, apesar da dicotomia apresentada no texto, não precisam mesmo.
E voltando aos anos 80,
rumo a 2013, o balanço que fica vem da certeza não mais de que os
últimos 25 anos me credenciaram para alguma coisa, mas me
proporcionaram o recolhimento de algumas palavras, o avançar de
algumas certezas e o retirar do véu que me separava da compreensão do movimento da vida, que inevitavelmente existe, ainda que tentemos contê-lo.
Descobrir-se inteiro é libertador e descobrir o amor pelo outro, sem boicotes, é transformador. Experimente.
Acredito em Deus e em
remédios, necessariamente nessa ordem. Mas acredito em pessoas. Essa
é outra descoberta. Se não acreditasse, não amaria. E amo. Como amo.


