Quando a palavra escrita fala mais



terça-feira, 22 de novembro de 2011

Colocando pessoas no seu devido lugar; pronomes, nem tanto.




Eis um exemplo dos inusitados presentes que recebo ao pesquisar sobre os mais variados temas, durante a revista de textos. Acho que agora dará para entender por que a coisa vicia.

"O deputado Teixeira Coelho, do Maranhão, fiel ao purismo lingüístico de São Luís, a Atenas brasileira (que depois do Sarney virou a 'apenas brasileira' - [esse adendo é ótimo] ), ficou indignado:

__ Deputado Flores da Cunha, V. Exa. não pode estar nesta Casa, onde se deve primar pela pureza da língua, a cometer esses deslizes de pronome fora do lugar, começando os períodos.
__ Isso é coisa de importância menor, deputado. O principal é a idéia.
__ Desculpe, Exa., mas não é. Lá em São Luís não admitimos isso em estudante de ginásio.

Flores da Cunha deu uma baforada, olhou lá de cima com total desprezo:
__ Senhor deputado, lá no Rio Grande a gramática é livre, como livre são os pampas e o minuano, como é livre o gaúcho.
__ Mas não está dispensado de respeitar a língua.
__ Ora, deputado, quem é V. Exa. para corrigir minha linguagem?
__ Sou um deputado, como V. Exa.
__ Mas sem autoridade nenhuma para falar de pronomes. V. Exa. é o próprio pronome mal colocado. V. Exa. é um pronome errado.
__ Não entendi, deputado.
__ Olhe sua carteira de identidade. V. Exa. é ‘Teixeira’ Coelho. Em nome do purismo da língua deveria chamar-se ‘Xeira-te’ Coelho.

O Teixeira calou."


Relato de Sebastião Nery, jornalista, escritor e político, entre outras coisas, 
sobre causo publicado na Folha de S. Paulo
em 18.2.81 e posteriormente transcrito por Celso Luft no Correio do Povo.




[Taí, uma bela homenagem a um gaúcho de quem tenho  o prazer de ser amiga].
E para tentar resolver o que as inúmeras regras sobre colocação pronominal não resolvem:
"Se sentiu, se tentiu, oi tentiu, no ventiu..."
Melhor usar 'sentiu-se'."


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fechando ciclos


Ao saber da minha gravidez em junho do ano passado, um pouco do sem número de metas tornou-se premente. A solidão com que ‘li’ a notícia e a ameaça de aborto deflagrada pela presença pavorosa de sangue despertaram-me para coisa maior: seguir. E segui, motivada pelo desejo de sentir o cheiro da pele do bebê, ainda em formação, que, com um pouquinho da minha ajuda, muito do meu amor e 38 dias de repouso, quis viver. E após o sonhado cheiro, veio-me que o espaço e um único banheiro na casa eram pouco pra família que aumentava. E mãos à obra, literalmente, que começou quase que simultaneamente com as mudanças também no corpo.
A previsão inicial de 3 meses para paredes abaixo e outras acima tornou-se um martírio de 7 meses e meio comandado por um instrutor de terrorista (o experiente ‘mestre’), o que daria um diário de bordo recheado de  @##$%¨&*()_+_)(*@$%¨% e  ‘piiiiiiiiiiiiii’ , se o tempo já tão escasso e o cansaço permitissem escrevê-lo à época.
O fim da engenharia – e o da gravidez desejada, mas sofrida – mais que encerrar um ciclo, abriu a nova perspectiva que fortaleceu e fez recuperar a protagonista da minha vida, sendo este apenas um dos milagres que meu meninão me trouxe.
Do encontro falacioso do abril retrasado (22) ao desencontro redentor deste (16), daquele esperançoso setembro (1º) à crueldade libertadora do último (também em 1º), o  abrir e encerrar de ciclos vividos nos últimos 18 meses descortinou a paisagem, dando-me a clara ideia de que a dignidade é, de fato, o maior bem a se preservar. 

Agora, sangrando bem menos e iluminada pela luz dessa tela e de Deus, inspirada pelo Luca e seu sono gostoso ao meu lado e ao som da Primavera do Beto Guedes - que, aliás, daqui uns dias também se encerra - a boa nova pede para andar nos campos.


E quem dirá que este projeto, 
feito de filhos amados, amigos, sonhos, amor, dedicaçãoquintal, cinema, cores e uma dose de luta diária não é um grande começo de um belo ciclo?