Quando a palavra escrita fala mais



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A mãe do noivo



A adolescência sempre me pareceu complexa e, ao mesmo tempo, uma fase indesculpável, ao menos na realidade em que me foi apresentada e vivida. Indesculpável pois as 'únicas' tarefas eram estudar, aprender, ir às dezenas de aulas e varrer a casa. Mas, ao contrário do que se possa pensar, as obrigações a mim impostas na tal fase (tirando a parte gostosa de varrer toooda a casa) sequer permitiram-me reflexões, escolhas ou mesmo o sentir do distanciamento da infância e das transformações. 

Estar aos 16 anos cursando uma faculdade de Direito não ajudou muito; melhor dizendo, piorou muito. A perdição foi bem retratada no formulário de inscrição do vestibular, em que marquei como primeira opção o curso de Direito (vencendo a disputa com a Música), como segunda, Biologia, e, finalmente, Jornalismo, enquanto o que eu havia decidido  mesmo (isso, determinação!) era Jornalismo (primeira opção), Música (segunda) e Biologia. Direito?? Ah, é... eu fiz Direito. De novo: primeira, Direito; segunda, Arquitetura; terceira, Nutrição.  Não era isso? 

Isso sem contar o sonho – mudo, por medo de espancamento – de trocar ‘tudo’ por aquela viagem ao mundo, sem volta, com uma mochila e 3 latas de farinha láctea, E de comprar uma casa com um lindo jardim, na cidade natal, em, no máximo, 6 meses, com o fruto do trabalho de professora de 5 aulas de piano semanais (cadê a viagem ao mundo?) E casar-me com o professor de matemática seguidor dos dogmas da tribo da sandália franciscana surrada, que resolveria todas as minhas aflições e faria de mim a mulher mais adulta e independente do mundo (professor de matemática que resolve todos os meus problemas = eu independente???? #ferrou...).

 

Foi aí que vi que precisava tomar um rumo na vida e decidi colocar a minha primeira aliança de compromisso – de coco (que máximo!) – com um garoto de 15 anos (alguém viu  um professor por aí?), que seria o pai dos meus 4 filhos com os quais eu jamais daria um grito sequer... então tá, gente!

Talvez seja por causa de todos esses planos frustrados, ou ilusões-graças-a-Deus  arrancadas, é que imaginemos que haja uma necessidade de continuidade da árvore, cujos frutos nos vingarão. A fórmula na qual se acredita, dando continuidade aos sonhos adolescentes, consistiu inicialmente em não permitir que meu filho entrasse na faculdade aos 16.

Missão cumprida. Samuel aos 16 no segundo ano do segundo grau ainda! O garoto é diferente de mim! Saberá o que fazer da vida! Primeira opção: ENGENHARIA MECATRÔNICA!!!! (garoto de visão!); segunda opção: NANOTECNOLOGIA! (uau! na linha da primeira!); terceira opção: MÚSICA! Hein?). De novo, Samuel, você é capaz!!!: Primeira opção: ROBÓTICA! (uhu!); segunda opção: ENGENHARIA ELETRÔNICA que pega a mecatrônica e a robótica, com possibilidade de doutorado no MIT! Caraaaacaaa! Isso merece sangrar o dedo na vogal: caraaaacaaaaaaaaaa!; terceira opção: FÍSICA MÉDICA, e só tem 3 caras que fazem isso NO MUNDO! Que gênio!

___ Peraí, mãe! Decidi! Única opção: teatro. #filhodap*&%#@aaaaaaaaaaaaaaaa

Então vi que meu filho honraria a adolescência que pouco tive e que suas decisões, quando tomadas, seriam bem mais conscientes e livres que as minhas. Para contribuir um pouco com esse processo, eu me recusaria a incentivá-lo nas mesmas ilusões.   
Jamais. 

___ Mãe, vou pedir a Carol em namoro oficialmente. Me ajuda a escolher a aliança?

___ Aliança? Aliança!!!!!!????? De quê?!!!!!! Coco??????????

___ Não, de aço com fio de ouro.

___ Claro! Vamos escolher essa aqui. É mais bonita que a outra! Eu pago a diferença!!! 

Jamais...