Interessante como tudo se ressignifica a partir de um mero acontecimento, não tão estreme assim, verdade.
O centro de Goiânia nunca foi meu forte. Quarteirões populosos voltados para compras e sem estacionamento em geral passam longe de mim, a menos que tenham charme, e isso eu nunca consegui enxergar no centro da cidade. De fato, ele não é charmoso, é mais.
Comecei essa descoberta acidentalmente, quando me propus a revisar a brilhante dissertação de mestrado de uma amiga (ou a dissertação de mestrado de uma brilhante amiga, porque uma coisa redunda na outra). Minha deformidade profissional não me deixava enxergar além do patrimônio art decó do centrão apavorante, moldado em cimento e traços. Era só isso que via e protegia.
A história do centro planejado da cidade, outrora elitista e concebido para tanto, se choca e entrelaça com a história da vizinha Vila Nova e do Leste Universitário, bairros emergidos da dinâmica dos que construíram a cena principal e à margem dela viveram por um tempo.
As relações sociais eram bem ilustradas por essa cena aqui: na rua 8, homens de um lado e mulheres do outro. Todos filhos ou amigos dos filhos dos coronéis, políticos e outras pessoas influentes da época, gente finíssima... Elas desfilavam de uma ponta a outra. Eles observavam e escolhiam. Quase um mercado, mas há quem diga e acredite que isso era bem excitante. Meus pais, por exemplo.
Mas o centro hoje pertence aos goianienses que não desistiram dele e o transformaram na representação viva da cidade. A lealdade e bravura dos que ali vivem em meio a buzinas, fumaça e metrobus impressionam. A atratividade democrática do lugar ainda abriga a memória elitista da capital e simultaneamente proporciona a satisfação da necessidade dos que cobrem a família com 5 peças de roupa por 20 contos. Onde mais nessa cidade pode-se conviver com prédios históricos, estilo arquitetônico marcante, camelódromos, pastel frito na hora, lojas de departamento e eletrodomésticos, raízes de tudo quanto há, farinha de mandioca, polvilho, busão, pessoas interessantes e sebos?
Pessoas interessantes e sebos. Foi aí que vi que já tinha observado o centro antes.
__ Moro em frente aos sebos da Rua 4.
__ Sei onde é!
__ Sei onde é!


