“Com que facilidade conjugamos o verbo amar... e estamos constantemente andando atrás dele, como um complemento qualquer. Mas quando é que realmente podemos ter a certeza de que amamos alguém? porque muitas vezes amamos a maneira que nos sentimos na presença de alguém. Confundimos amor com amor próprio (ou a falta dele) e, nesse caso, separar o trigo do joio é uma tarefa árdua, muito árdua.” (Falabella)
A certeza vem dos encontros que transmitem paz, lealdade e gratidão. Aqueles feitos de paixão, com um quê de ternura; de agitação sadia a dois, suficiente, mas de estabilidade; de desejo e um simples abraço; de improvisos gostosos no meio do caminho, mas de projetos e responsabilidade; gestos, ações e meros olhares.
O amor não ocorre a qualquer preço, não se constrói “doa a quem doer”, posto que é bom. Exige respeito, preserva o outro – não por meio da ocultação, mas do cuidado, etimologia ‘curare’. Trata com parceria e não assume várias formas, mas uma só, a da transparência. Faz por merecer o perdão dispensado, não abusa. Não se apoia no outro como uma boia salva-vidas que, ao ser constantemente mirada, impede de tocar o barco adiante. Fora isso, não é amor.
Não se mente por amor, nem ao destinatário do suposto amor, nem a qualquer destinatário que seja. Aliás, a mentira é verdadeiro furto, pois quando mentimos para o outro roubamos dele a chance de conhecer a verdade e optar por ela. E o sinônimo disso é covardia, manipulação. Anota aí, Aurélio.
Não se fere por amor. Não se omite em nome dele. Ao contrário, revela-se. O amor acalma, apazigua a alma agitada. A perdida? Essa, só com um descortinar de si. Dificilmente encontra-se, no outro, o que está perdido em si mesmo.
E, por mais decepcionante que seja ao amor exclusivamente romântico, amar é também escolha, disposição e disponibilidade Decide-se por um amor rico, grato, generoso. Opta-se pela paz e pela realização de uma vida construída em parceria e não por uma odisseia vazia, de vai-e-vem sem direção.
E em razão de tudo isso, respondendo, de uma só vez, sobre o meu amor e o meu amar a tantas pessoas que não compreendem a minha dor e a recusa a paixões rasas, não me recuso ao amor. Ele será encontrado no caminho natural. Proponho-me a amar e bem sei que o amor, como um rio, por mais que se tente represá-lo, reencontra o seu curso.
O tempo agora é de renúncia – e como ela dói. E como liberta, para que se volte a conjugar o verbo amar sem banalidade, sem boia salva-vidas, generosa e responsavelmente.
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos... A renúncia é libertação. Não querer é poder.” Fernando Pessoa.








