Quando a palavra escrita fala mais



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sobre amar

“Com que facilidade conjugamos o verbo amar... e estamos constantemente andando atrás dele, como um complemento qualquer. Mas quando é que realmente podemos ter a certeza de que amamos alguém? porque muitas vezes amamos a maneira que nos sentimos na presença de alguém. Confundimos amor com amor próprio (ou a falta dele) e, nesse caso, separar o trigo do joio é uma tarefa árdua, muito árdua.” (Falabella)

A certeza vem dos encontros que transmitem paz, lealdade e gratidão. Aqueles feitos de paixão, com um quê de ternura; de agitação sadia a dois, suficiente, mas de estabilidade; de desejo e um simples abraço; de improvisos gostosos no meio do caminho, mas de projetos e responsabilidade;  gestos, ações e meros olhares.

O amor não ocorre a qualquer preço, não se constrói  “doa a quem doer”, posto que é bom. Exige respeito, preserva o outro – não por meio da ocultação, mas do cuidado, etimologia ‘curare’. Trata com parceria e não assume várias formas, mas uma só, a da transparência. Faz por merecer o perdão dispensado, não abusa. Não se apoia no outro como uma boia salva-vidas que, ao ser constantemente mirada, impede de tocar o barco adiante. Fora isso, não é amor.

Não se mente por amor, nem ao destinatário do suposto amor, nem a qualquer destinatário que seja. Aliás, a mentira é verdadeiro furto, pois quando mentimos para o outro roubamos dele a chance de conhecer a verdade e optar por ela. E o sinônimo disso é covardia,  manipulação. Anota aí, Aurélio.

Não se fere por amor. Não se omite em nome dele. Ao contrário, revela-se. O amor acalma, apazigua a alma agitada. A perdida? Essa, só com um descortinar de si. Dificilmente encontra-se, no outro, o que está perdido em si mesmo.

E, por mais decepcionante que seja ao amor exclusivamente romântico, amar é também escolha, disposição e disponibilidade Decide-se por um amor rico, grato, generoso. Opta-se pela paz e pela realização de uma vida construída em parceria e não por uma odisseia vazia, de vai-e-vem sem direção. 

E em razão de tudo isso, respondendo, de uma só vez, sobre o meu amor e o meu amar a tantas pessoas que não compreendem a minha dor e a recusa a paixões rasas, não me recuso ao amor. Ele será encontrado no caminho natural. Proponho-me a amar e bem sei que o amor, como um rio, por mais que se tente represá-lo, reencontra o seu curso.

O tempo agora é de renúncia – e como ela dói. E como liberta, para que se volte a conjugar o verbo amar sem banalidade, sem boia salva-vidas, generosa e responsavelmente.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos... A renúncia é libertação. Não querer é poder.” Fernando Pessoa.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Colocando pessoas no seu devido lugar; pronomes, nem tanto.




Eis um exemplo dos inusitados presentes que recebo ao pesquisar sobre os mais variados temas, durante a revista de textos. Acho que agora dará para entender por que a coisa vicia.

"O deputado Teixeira Coelho, do Maranhão, fiel ao purismo lingüístico de São Luís, a Atenas brasileira (que depois do Sarney virou a 'apenas brasileira' - [esse adendo é ótimo] ), ficou indignado:

__ Deputado Flores da Cunha, V. Exa. não pode estar nesta Casa, onde se deve primar pela pureza da língua, a cometer esses deslizes de pronome fora do lugar, começando os períodos.
__ Isso é coisa de importância menor, deputado. O principal é a idéia.
__ Desculpe, Exa., mas não é. Lá em São Luís não admitimos isso em estudante de ginásio.

Flores da Cunha deu uma baforada, olhou lá de cima com total desprezo:
__ Senhor deputado, lá no Rio Grande a gramática é livre, como livre são os pampas e o minuano, como é livre o gaúcho.
__ Mas não está dispensado de respeitar a língua.
__ Ora, deputado, quem é V. Exa. para corrigir minha linguagem?
__ Sou um deputado, como V. Exa.
__ Mas sem autoridade nenhuma para falar de pronomes. V. Exa. é o próprio pronome mal colocado. V. Exa. é um pronome errado.
__ Não entendi, deputado.
__ Olhe sua carteira de identidade. V. Exa. é ‘Teixeira’ Coelho. Em nome do purismo da língua deveria chamar-se ‘Xeira-te’ Coelho.

O Teixeira calou."


Relato de Sebastião Nery, jornalista, escritor e político, entre outras coisas, 
sobre causo publicado na Folha de S. Paulo
em 18.2.81 e posteriormente transcrito por Celso Luft no Correio do Povo.




[Taí, uma bela homenagem a um gaúcho de quem tenho  o prazer de ser amiga].
E para tentar resolver o que as inúmeras regras sobre colocação pronominal não resolvem:
"Se sentiu, se tentiu, oi tentiu, no ventiu..."
Melhor usar 'sentiu-se'."


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fechando ciclos


Ao saber da minha gravidez em junho do ano passado, um pouco do sem número de metas tornou-se premente. A solidão com que ‘li’ a notícia e a ameaça de aborto deflagrada pela presença pavorosa de sangue despertaram-me para coisa maior: seguir. E segui, motivada pelo desejo de sentir o cheiro da pele do bebê, ainda em formação, que, com um pouquinho da minha ajuda, muito do meu amor e 38 dias de repouso, quis viver. E após o sonhado cheiro, veio-me que o espaço e um único banheiro na casa eram pouco pra família que aumentava. E mãos à obra, literalmente, que começou quase que simultaneamente com as mudanças também no corpo.
A previsão inicial de 3 meses para paredes abaixo e outras acima tornou-se um martírio de 7 meses e meio comandado por um instrutor de terrorista (o experiente ‘mestre’), o que daria um diário de bordo recheado de  @##$%¨&*()_+_)(*@$%¨% e  ‘piiiiiiiiiiiiii’ , se o tempo já tão escasso e o cansaço permitissem escrevê-lo à época.
O fim da engenharia – e o da gravidez desejada, mas sofrida – mais que encerrar um ciclo, abriu a nova perspectiva que fortaleceu e fez recuperar a protagonista da minha vida, sendo este apenas um dos milagres que meu meninão me trouxe.
Do encontro falacioso do abril retrasado (22) ao desencontro redentor deste (16), daquele esperançoso setembro (1º) à crueldade libertadora do último (também em 1º), o  abrir e encerrar de ciclos vividos nos últimos 18 meses descortinou a paisagem, dando-me a clara ideia de que a dignidade é, de fato, o maior bem a se preservar. 

Agora, sangrando bem menos e iluminada pela luz dessa tela e de Deus, inspirada pelo Luca e seu sono gostoso ao meu lado e ao som da Primavera do Beto Guedes - que, aliás, daqui uns dias também se encerra - a boa nova pede para andar nos campos.


E quem dirá que este projeto, 
feito de filhos amados, amigos, sonhos, amor, dedicaçãoquintal, cinema, cores e uma dose de luta diária não é um grande começo de um belo ciclo?



quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A casa do meu primo

Recife, cidade feliz
Na poesia não se contradiz
Pois vive diariamente com maestria
Não importando se de noite ou de dia
O Recife vive, ama e respira poesia...

(Mercedes Pordeus)


__ Não gosto, acho feia a cidade. É violenta também e fede. Escolhi esse litoral para passear porque meu primo mora aqui.

Foi essa a resposta malcriada – e que mais tarde me traria sério arrependimento – que dei às moças que me perguntaram se eu já conhecia Recife e se gostava dele. Elas, que gentilmente me ajudavam na chegada ao aeroporto dos Guararapes com o carrinho de malas enquanto eu segurava o bebê com um braço e duas bolsas com o outro, decaíram na expressão. Remendei: “ mas isso é o que eu acho; muitos amam a cidade; são de São Paulo? Acho que vão amar”...  ?!??!

A minha experiência vivida com o Recife, 12 anos antes, foi traiçoeira e ingênua à medida que o tempo simplesmente...passa! Passou para a cidade e principalmente para o meu olhar míope. Não que parte desses problemas citados não exista mais, mas as cidades, feitas de gentes, são bem mais que isso.

Viadutos não me impressionam; não sou uma turista voltada à modernidade, muito menos advinda de trânsito caótico. E aí ‘sobram’ as praias próximas à capital, sobram Galinhas e Cabo de Santo Agostinho, sobram – e como sobram – Carneiros; sobra história, sobra cultura e sobram, mais que tudo, os Pernambucanos.

Os sucessivos tapas-na-cara começaram no restaurante, enquanto eu seguia lépida e fagueira em busca da última mesa vazia do Paranóia. “Que bebê lindo”, “bebezinhooo?”, “ô, fofo”, “gracinha”, comentários na pequena trajetória desde a calçada até a mesa, agora menos cobiçada após tanta simpatia que naturalmente me retardou. Mais comentários durante a estada e outros tantos na saída, mas foram eles, os de lá, quem merecem comentários.

Nos dias seguintes vários ‘maridos e pais’ surgiram carregando o bebê e toda a nossa tralha em Carneiros e no city tour. Guias, garçons, vigilantes do bar da praia, gerente: foi um tira-foto, um empurra-carrinho, um vigia-roupas na areia enquanto eu entrava no mar com o bebê, que dormiu sobre o meu peito imediatamente. Não era pra menos, após tanta brisa e alento. Mais emoção, difícil de ser contida com isso aqui: “moça, quer ajuda para por água dentro do barquinho do bebê? ou melhor, perdão... deixa eu ajudar você, por favor”. ‘Deixo’, Valdomiro.

E se por um lado não sou uma turista voltada ao moderno, por outro não sou a típica ‘garota de praia’. Gosto de city tour e de pegar todas as linhas dos tourist bus, formas práticas e eficientes de conhecer os principais cantos da cidade, já que os passeios autônomos são quase sempre direcionados pelo nosso limitado conhecimento e pretensão; gosto de museus, ditos por uns de ‘coisas velhas’; gosto das ladeiras de Olinda, da tapioca da Sé, do forro de filé, de bolo de rolo; do "ti" e do "di", diferentes do meu; e das cores do frevo. Gosto de Luis Gonzaga, de Dominguinhos, de Chico Science, de Alceu e até de Reginaldo Rossi, a meu modo. Amo Lenine, de todos os modos. Gosto de Paulo Freire, do Manuel Bandeira; de Arlete Sales e da brilhante Hermila Guedes. Adoro o Nanini. E amei o Valdomiro, o garçom mais carrancudo e sensível que já conheci.

__ Se gosto do Recife?  Escolhi esse litoral para passear porque meu primo mora aqui. Mas volto em breve, por tantas outras razões.

Na casa do meu primo tem luz do dia às 5 da manhã
Tem Calulu, a calopsita corintiana
Tem cardápio variado, chique e fácil de fazer
Tem a Lu que o executa
Tem brownie
Tem cadeirinha que balança e casinha feita de almofadas de sofá
Tem visita que faz bagunça
Tem mar ao lado, céu azul acima e salão de beleza ao fundo
Tem tapioca no café da manhã e suco de laranja
Tem paella especial em uma noite comum
Tem cama de casal com colcha branca
Tem o primo Fernando, tem a Lorena e tem a mistura deles: a bailarina Manu!
E na casa do meu primo tem Pernambuco, bem na janela...




terça-feira, 26 de julho de 2011

Aos 6 meses eu...


Acordo de vez entre 6:20 e 6:25, religiosamente
Sento-me quase sem qualquer apoio
Arranco os móbiles do meu berço e da minha cadeirinha
Sorrio quando alguém passa
Sorrio para alguém que passa
Falo bebeês
Seguro os meus dois pezinhos ao mesmo tempo
Chupo os dedinhos deles
Dou suspiros, muito suspiros
Adoro colo
Tiro as minhas próprias meias
Tenho dois dentinhos querendo nascer
Passo o dia grudado na minha mãe (ou é ela quem gruda em mim? unhuummm...)
Tomo banho brincando com o livrinho, a bolinha e os bichinhos
Seguro o copinho e bebo água e suco sozinho!
Dou um trabalho danado pra ter a fralda trocada
Adoro ficar pelado
Gosto muito da Pitucha e da Chiara
Dou gargalhadas com barulhos esquisitos
Brinco com chaves e celulares que (ainda) funcionam
Dou os bracinhos e inclino o corpo pra minha mãe me pegar
Choro quando ela passa na minha frente, sorri pra mim e não me pega – de propósito!!
Durmo apenas 6 horas durante todo o dia e noite, totalmente picadas
Já vou viajar para a praia
Tenho os cabelos claros, 8 kg e 65cm
Abraço bem apertado o pescoço da minha avó
Tenho os olhos castanhos claros bem grandes e cílios ainda maiores
Brinco com o bigode do meu avô
Pego tudo que está na minha frente
Faço cara feia para os beijos espinhosos da barba malfeita do meu tio Ton
Tento derrubar a xícara de café, o pão, o telefone, o forro da mesa, o controle remoto
Sou louco pelo leite da minha mãe
Como pera, banana, maçã, mamão e melão
Vomito no meu irmãozinho e depois rio da bronca dele
Durmo fazendo aquele 4 com as pernas. O meu 4 é bem pequenino...
Adoro ouvir música
Dou birra; aliás, empino de tanta birra
Tomo banho de banheirona
Rio muito quando minha mãe canta  __Cocôôô, cocôôô... __Coitado dele... __Coitado nada, ele é cocô!
ou então quando ela faz a voz do chooove, mas como chooove... chuva, chuvisco, chuvaraaaada, por que é que chove tanto assiiimmm... larara... Oh, que tarde tão bela, banana quente no forno com açúcar e canela! Chove, chove, chove, deeeeixa chover, enquanto tiver bolo de cenoura a gente nem vai percebe-er!
Ouço ela orar por mim à noite e sempre acordo no meio da oração, para o desespero dela
Ouço ela chorar quando ora, acho que de felicidade por eu existir, e por isso eu acordo, para a alegria dela...

Aos 6 meses, completos hoje, eu tenho duas covinhas nas bochechas, outra no queixo, orelhinhas pequenas, cheiro gostoso, dobrinhas por toda parte, sorriso feliz e muita, muita esperança...



quinta-feira, 30 de junho de 2011

1439 + 1


Hoje o dia teve mais que as corriqueiras 24h. O branquelo, que normalmente acorda 4, 5 vezes na madrugada, levantando-nos de vez às 6:20, hoje resolveu – sem me consultar – que 4:40 eram o mesmo que 6:20 e não houve canção de ninar ou qualquer dos ‘hits da vovó’ que o convencessem do contrário. E decidiu, ainda, que o cochilozinho das 10 da manhã deveria acontecer somente às 18h. Como a coisa pega, a minha ajudante entendeu que hoje não era preto na folhinha e pouco antes do almoço avisou que não viria. A revisão de um artigo, que deveria ter sido entregue até meio-dia, foi adiada. Sorte minha de ter entre os clientes as melhores amigas que possam existir. Sorte também (nessas horas) de viver na época da internet 3G conectada ao laptop dentro do carro, que transmitia o trabalho enquanto eu dirigia para buscar o Samuel na escola. Almoço? Claro, às 15:30, com o Luca choramingando no carrinho espinhoso talvez por me ver pulando em frente ao fogão na tentativa de fazê-lo rir. Comida pronta + bebê cheiroso do banho + trabalho entregue = descanso. Isso. Corta. Comida pronta, bebê cheiroso, trabalho entregue = arrumar cozinha. Como ninguém é de ferro, um episódio de Cold Case gravado há dias, aproveitando a soneca de 34 minutos do bebê, que acorda rindo não sei se pra mim ou de mim, desesperada por um rodo e sabão que transformassem esse lugar no que era um dia antes. Feito. Ambiente propício à preparação de 8 potes de gelatina de morango e limão, um tabuleiro de torradas com manteiga, alho e manjericão para assar e um café da hora.
Dia gostoso dedicado inteiramente a mim, aos meninos e à casa. Agora, pipoca no balde, leite puro e frio e o filme “O Amor Acontece”. Sim, acontece. Precisava arrumar um minuto precioso desses 1440 hoje intensamente vividos e uma página escrita pra lhe dizer isso, meu bebê...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um dia de muitos



Poucas palavras para um monte de paz e respeito.
É o que quero pra todos neste momento.
Que esses sejam os valores para casais de muito, médio, pouco e pouquinho tempo.
Felizes dias de namorados.




quinta-feira, 2 de junho de 2011

Olha o retrato!!!


Amigos,

no link à direita "OLHA O RETRATO" mais fotos do Luca, desta vez posando de modelo fotográfico. E eu aproveitei a ocasião para dar algumas pitadas do ar da graça...

Mila



 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Tudo de bom


Deus
Samuel e Luca
Leite gelado com farinha de milho após as 22h
O.B.
Meia luz
Café com a minha vista
Varanda do meu quarto
Amigos em casa
Samuel na percussão
Pequi
Conversa e risos a dois
Único toddynho na geladeira vazia
Filme em casa
Pipoca com leite puro gelado
Roupa solta
Chegar em casa
Pitucha e Chiara
Roupão branco e toalha enrolada na cabeça
Banho de espuma
Suco de laranja
Luca sorrindo
Viajar
Casa arrumada
Sashimir
Samuel e Luca
Samba e bossa
Geleia de amora na torrada caseira
Minha mãe, apesar de nós duas
Família
Quarto do bebê
Programa de milhagem
Céu azul
Milk shake de creme
Vinho na taça
Cerveja na tulipa
Café em xícara ou copo de extrato
Dirigir na estrada
Samuel e Luca
Ser coçada
Pontuação
Wireless
Consciência limpa
Praia
Caipirinha
Praia com caipirinha
Manifestação jurídica entregue
Meus três afilhados Leo, Guilherme e Vítor
Pé do nenê
Beijo 
Eu me enxergando e me alcançando novamente...



segunda-feira, 9 de maio de 2011

Dois filhos, duas mães


A mensagem sms que acabo de receber reclamou que eu finalmente voltasse a me sentar nesta cadeira.
Eu já sabia do significado de se homenagear mães – não as que parem, mas as que amam – no dia das mães. Sabia porque era mãe, mas agora sou renascida.
Meu 14º dia das mães teve um significado diferente, assim como ser mãe novamente ressignificou tudo. Diziam-me ser assim, mas não compreendia suficientemente a dimensão. Apenas fui otimista até então e agora sou surpreendida.
A oportunidade que Samuel e Luca me dão todos os dias de ser alguém melhor credita a eles, tão-somente a eles, toda a dádiva de eu ter-lhes dado a luz, quando na verdade a escuridão era minha.
E é aí que me vejo neste momento sem entender o porquê de ser homenageada. Discordo de Drummond (ouso): é filho que, na sua graça, é eternidade.
É o Samuel que, na sua dificuldade, concede-me a oportunidade de ajudá-lo na redação escolar. É o Luca que, na sua bondade, dá-me seus pequenos lábios em meu seio e me alimenta. É aquele quem, à meia-noite, me oferece a ocasião para que eu o busque em uma festa em que se encantou por uma menina e alegra-me com o seu crescimento e com a sua adolescência sadia, dando-me a chance de vê-lo crescer a meu lado. É o pequenino que me oportuniza vê-lo 3, 4 vezes durante a madrugada, além do dia todo. Para ele seria mais fácil, mais cômodo e mais saudável dormir, mas gentilmente espreguiça com os dois bracinhos, abre os olhos e com um sorriso responde a quase um apelo silencioso: “sorria pra mim, meu bebê”. É o mais velho quem me presenteia ao chegar suado com 2 gols feitos pra mim. E é o branquelinho quem permite com que eu o beije e o cheire várias e várias vezes seguidas sem reclamar da minha carência por sua pele macia.
São os dois que, com total despretensão, dão-me a graça de ocupar toda a minha cama e fazer-me pensar, neste exato momento, onde entrarei ali para passar a noite.
Se sou uma mãe minimamente afetuosa e uma pessoa um pouco melhor, devo isso a eles.
O sms: “Uma mãe nasce junto com o seu filho, sempre uma pessoa nova, que é diferente da mulher e até da mãe anterior. Mãe do Samuel. Mãe do Luca. Parabéns”.
Obrigada, Verônica, por estar ao meu lado quando me tornei uma pessoa renovada e duas mães, e não a mãe de dois.
Aos meus filhos, feliz dia das mães!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Fotos atualizadas do Luca...


Amigos, no link NOSSO PEQUENO, coluna direita do blog, mais fotos do bebezão, agora com quase 6kg e com uma bochecha linda de viver e boa de morder!

Mila

terça-feira, 22 de março de 2011

Meia noite, noite inteira



O motivo para se estar aqui, a essa hora, desta vez não é mera insônia. Ela sempre fez parte da minha rotina que se distribuía, nos últimos anos, entre acordar às 6h30min, levar Samuquinha ao colégio,  café da manhã em casa, visitas novamente à escola do Samuel para 'checar' as coisas, trabalho, um raro happy hour entre 19h e 20h (é, isso não faz parte da rotina), pegar o Samuel nas atividades e retornar à casa. A insônia - ou o ciclo teoricamente invertido de sono - fazia-me dormir por volta das 3 da manhã, acordando 3 horas depois e não dormindo mais. Daí o ciclo 'teoricamente' invertido.

Vez ou outra as apresentações musicais revigoravam-me, fazendo-me sentir quem de fato sou. Sensação muito mais intensa e prazerosa do que a finalização de uma peça jurídica extensa e cansativa, que mais se tornava um alívio que propriamente um prazer. Sinto falta de tudo isso, inclusive do peso jurídico, ou dos debates ambientais.

O tempo agora é tomado por uma coisinha maravilhosa que mede 62cm e acorda "meia noite, noite inteira, 3, 4, 5 da manhã". Incrível como aos 38 anos ainda é possível se surpreender com a disposição e vontade de cuidar de uma pessoa em miniatura que toma todo o seu tempo e energia e a devolve por completo em um pequeno gesto de desenvolvimento ou um curto espirro lindamente gostoso. Como diz minha mãe, "como é fácil amar de imediato uma criança".

O Luca ainda não se deu conta da sua especialidade; eu sim. Para o choro e o sorriso - que já surge  intencionalmente - as palavras são amor e gratidão. Acordar de madrugada, quando é possível dormir, tornou-se tarefa árdua e simultaneamente prazerosa e, como não consigo ver um bom filme pela metade, opto pelo canal aberto com programas matinais curtos que ao mesmo tempo mantenham meus olhos abertos mas não interessados, pois estão atentos e apaixonados por ele, aceso das 5 às 7 da matina.

Entre o Telecurso, G. Rural, Bom Dia Goiás, Bom Dia Brasil e Mais Você há espaço para o choro, o sorriso, a cólica, a troca de fralda, a amamentação, o sono nem sempre satisfeito e até para o teste do omelete da Presiden-TA!

Hoje, exatamente hoje no início da noite, o olhar para o Luca foi diferenciado, de cura e propósito. Não tenho a música que, saindo do meu ventre e da minha garganta, acalmava-me para a próxima batalha. Padeço da falta da defesa ambiental e indígena que tanto me alimenta. Restaurantes japoneses? Bo!

Tenho o Luca, que mais que tudo isso, já olha nos meus olhos e, ao que tudo indica, quer me amar gratuita e desmerecidamente e ser amado - mais que já é. Um bebê com menos de 2 meses que esta noite, por volta das 19:40, exigiu-me o peito, lembrou-me de quem eu sou, fez secar minhas lágrimas e, meio que sorrindo, pediu-me para eu viver.

Obrigada, meu filho, por me ensinar. 
Esse é o motivo da minha insônia, esperando, daqui a pouco e feliz da vida, por você...


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

NOSSO PEQUENO...



Vejam algumas fotos do nosso bebê no link ASSUNTOS - NOSSO PEQUENO, coluna lateral direita do blog. 
Enjoy...

Ludmila


Sobre lugares



A ocasião pede um post "sobre o tempo", escasso pra mim nos últimos dias. Ter um filho é missão bem mais trabalhosa que plantar uma árvore e escrever um livro.

Então transcrevo um trecho 'sobre lugares' de um livro em que trabalhei como revisora, relembrado pelo meu amigo Edson Quaresma, editor da obra.

"Sobre lugares:
Nascemos num lugar dentro do corpo da mãe; a mãe está num lugar dentro de uma casa ou de um hospital; esse está num lugar na cidade ou no campo que, por vez, está num lugar dentro de um estado, de um país, de um continente. Mas, há outros lugares – os de dentro, os que não se enxergam, não se pisam, não se tocam... O meu lugar no olho daquele que me vê; o lugar do estranho na sensação do meu espanto; os trieirinhos da alma, cada coisa sentida, cada afeto recebido, cada desejo não cumprido. Ou mesmo os rios das paixões desacertadas, os mares transbordantes do medo que quiseram se transformar em dores... Sempre perguntamos 'qual é o meu lugar?' O lugar do meu nome na língua..."
(Eguimar Chaveiro, 2005).

Qual é o meu lugar? tenho a impressão de estar o encontrando na estrada percorrida, cheia de tropeços. Que você, filhote, esteja ao meu lado nessa caminhada...


domingo, 23 de janeiro de 2011

'Vem pra mamãe você também, vem!'



Sempre dizem que grávida tem sensibilidade extrema, mas nem precisavam dizer. Minha primeira gestação, há 14 anos e meio, teve altos e baixos. Eu em Brasília, o então amor (hoje verdadeiro irmão) em Goiânia. Nós em Hidrolândia, nos finais de semana. Protagonistas de música ao vivo em bares, o sossego era raridade e o sono, uma constante.

Em alguns momentos, no aconchego do mato e com o cobertor semirasgado feito de lã já puída, cantava-se sob a lua (ou para ela), com o queijo assando à beira da fogueira. "Festa estranha com gente esquisita"... isso também fazia parte. Música, muita música, e o andar do companheiro às 4 da manhã mata afora. Momentos dele e dele. Eu, de longe, olhava, tentando compreender o que hoje é muito nítido pra mim. O encontro pessoal necessário. Momentos 'a um'.

E nesse contexto de distância, encontros, fogueira, sono e barriga, a sensibilidade fluiu. Chorava muito, senti-me feia (20 kg a mais), apesar dos tantos elogios e apoio daqueles que compartilhavam a vida comigo. Mas chorava. E chorava.

A atual gestação (há exatos 8 minutos estou tentando encontrar as palavras para descrevê-la neste espaço...)... Ufa! A atual gestação foi um misto de susto, desespero, abandono, luta pessoal, provações.

Em meio a isso, meu meninão, que nasce daqui a 3 dias, infelizmente viveu as minhas dores, na minha incapacidade de dizer-lhes 'não' quando mais precisava e menos conseguia. A sensibilidade, duplicada pelos meus 38 aninhos, triplicada pelos hormônios próprios da prenhez e elevada à 8ª potência pela crueldade humana, atingiu seu ápice no assistir não só de uma, mas de duas e de três publicidades bancárias. Não, não tem graça, mas um dia ainda vou rir disso...   :)

O melhor vai começar. Primeiro aquele lindo garotinho de aproximadamente 1 ano, de body azul claro, que se levanta com dificuldade - mas persistente e confiante - com a emocionante trilha do Guilherme Arantes em versão propositadamente melódica:

"Você mostrou pra mim como enxergar, assim, mais de um milhão de motivos pra sonhar, enfim... e é tããão gostoso ter os pés no chão e ver que o melhor da vida vai começar..." Em 2011, o melhor da vida vai começar.

Objetivo atingido (afinal, se há alguma imagem de banco associada a uma criança é a desse banco brasileiro e sua caderneta de poupança); mas talvez não tivessem noção de que o caminhar exitoso daquele garoto pudesse simbolizar tanta realidade e fazer alguém chorar copiosamente e sorrir ao mesmo tempo, grata e confiante.

Presença Lado a Lado. A campanha reforçou que "presença de verdade é estar lado a lado". Na publicidade de final de ano, pessoas que não se conhecem - mas ocupam um mesmo metrô - descem na estação, onde seus pares as aguardam. Abraços entre pais e filhos, avós e netos, irmãs e irmãos, namorados e namoradas que vivem distantes se multiplicam e a saudade é finalmente aliviada pelo reencontro, pela presença, lado a lado. E dá-lhe lágrima, porque lágrima que é lágrima corre "lado a lado"!

Juntos.
"Para fazer um mundo mais colorido só existe uma cor: todas.
 Para fazer um mundo mais responsável só existe uma lei: a da consciência.
 Para fazer um mundo mais sustentável e pacífico só existe uma fórmula: a do respeito.
 Para fazer um mundo melhor só existe um jeito: juntos".

E a nova curta para o cúmulo da sensibilidade é 'chorar com publicidade de banco'.

Luca, você mostrou pra mim como enxergar, assim, mais de um milhão de motivos pra sonhar, enfim... e é tão gostoso ter os pés no chão e ver que o melhor da vida vai começar, com todas as cores do mundo disponíveis pra nós, lado a lado, juntos... Vejo você em 3 dias, meu mais novo e eterno amor...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Aceitação



A recente tragédia no estado do Rio de Janeiro nos torna ainda menores, não 'somente' pelas dimensões épicas do episódio e pela nossa incapacidade e inoperância frente a ele, mas por apontar com crueldade àqueles que dele não padecem (entre os quais me incluo) a pequenez de alma vivida no dia a dia e dos problemas, reais, mas menos pesados que supomos, bem menos.

Verdade que a realidade de cada um delimita a sua dor e difícil atentar que ela é mais que romântica e burguesa, pois beira o adjetivo "vergonhosa", até que nos atentamos. Diante - mas ainda estáticos - de perdas irreparáveis como as mortes reais no Rio, em Minas e mundo afora, percebemos que nossas mortes internas são ressuscitáveis, aquelas não. E é exatamente aí que nos tornamos maiores e mais fortes.

Pedreiro perde filho de 2 anos, esposa e mãe; recebe abrigo seguro mas se recusa: prefere ser voluntário e ajudar a salvar os demais, ao tempo em que enterra os que ama. As lágrimas - necessárias - finalmente caem por alguns minutos. A vida, contudo, impõe-lhe mais, guiar bombeiros e médicos pela região devastada e tão bem conhecida dele. E por ali ele vai, resoluto.

Enquanto isso, lamentamos com a mais profunda dor a frustração dos nossos planos padrões, talvez por sabermos da nossa capacidade de realizá-los, é verdade, e não nos conformamos com o que a vida nos apresenta no momento: "é o que tem pra hoje."

Com diz um amigo muito querido, "começamos 2011 foi é bem, Lud; deixemos as dúvidas e dores em 2010"; em conversas como essas, com pessoas que realmente se ocupam da amizade consciente, não tendenciosa e da solidariedade, e no reflexo da luz da TV noticiando a tragédia maior, os problemas - muitas vezes  representados na figura de pessoas indispostas a amar e a se doar com o necessário sacrifício; das perdas financeiras; da obra inacabada; do filho por vir sem as condições emocionais, afetivas e sem o teto confortável sonhados; da incompreensão; da acusação desferida contra o outro para ocultar e justificar a própria inércia, o próprio caráter comprometido, as próprias fraudes, a perdição total e o aniquilamento de valores - passam a ser vistos com a necessária autoestima e amor próprio e nos envergonhamos da autopiedade, da condição de humilhação que permitimos nos seja colocada e - na verdade - nos colocamos.

A famosa frase de consultório, dita sem a necessária reflexão e profundidade, se repete sem o menor constrangimento: "ninguém é responsável pela (in)felicidade do outro". A palavra 'responsabilidade' é banalizada por ser pesada demais pra quem não a compreende; assim, adere-se, sem qualquer análise, ao quase jargão; mas somos, no mínimo, responsáveis pelo nosso comportamento nas relações a que nos propomos e na medida que nisso negligenciamos, afetamos tremendamente a vida alheia, não tão alheia assim, pois nela nos entrelaçamos voluntariamente.

A meta de refazimento pessoal, como a do pedreiro, com dignidade e determinação com os nossos e com o desconhecido é premente. Acordemos, finalmente, para a lição adquirida, não só de responsabilidade com a vida 'alheia', mas de solidariedade e disposição.

A minha eutanásia cessou e a vida abundante se consolida a cada instante. Solidarizo-me com o Rio, solidarizo-me com as minhas tragédias pessoais. Guiemos o rumo da nossa história, como o pedreiro determinado, e paremos com o "deixa a vida me levar, vida leva eu". Não fosse o parto iminente, eu estaria lá com ele.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Seiva e Suor




"Contra uma visão alarmista que chama apenas para as lágrimas, para os lamentos e não para a luta, é preciso enunciar o seguinte: ideias e projetos são seivas da vida, mas necessitam de punho, ação e suor para se concretizar. E se há destruição (e há), é preciso dizer o nome de quem destrói e por que destrói,
para que haja conscientização e reconstrução".

As revisões de texto me enriquecem a cada instante. O trecho acima, retirado de um livro em elaboração, é voltado para a geografia, para o humano, para o amor, para a vida e reforça que talvez alguns de nós estejamos no caminho certo da transformação e da reconstrução.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Rostinho do Luca....




Essa é uma "foto" do rosto do meu bebê, dormindo...
Não sei se é coisa de mãe ansiosa, mas ele parece meio bochechudo, não acham?



Fotos - Chá do Luca



No link 'Assuntos" (coluna direita da página) estão as fotos do chá de bebê do Luca, inteiramente organizado por minha amiga e irmã Adriana, a quem serei grata pelo resto da vida pelo companheirismo e amizade.