Quando a palavra escrita fala mais



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

“Através de” no sentido de “por meio de”



O uso da expressão “através de” no sentido de “por meio de”, “por”, “por intermédio de” divide gramáticos e teóricos da língua portuguesa. Inicialmente, os significados:

A locução “através de”, em seu sentido literal, significa “de um lado a outro”, “transpor” “cruzar”, “ao longo de”, “de través”:

A luz entrava através de uma abertura na cortina

A locução “por meio de”, a seu turno, significa “por intermédio de”, “mediante”:

Soube da triste notícia por meio de um amigo

E o que pensam os gramáticos e os críticos da Língua Portuguesa quanto ao uso de “através de” no sentido de “por meio de”? O Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, Eduardo Martins, 1997, defende o uso da locução apenas em seu sentido literal:

A locução, no seu sentido correto, equivale a por dentro de, de um lado a outro, ao longo de: Cavalgou através de prados e florestas. / Viajou através de todo o país. / Olhava através da janela. / Foi sempre o mesmo homem honesto através de anos e anos. 3 — Por isso não use através de como por meio de, por intermédio de ou por simplesmente, preferindo uma dessas formas: Soube da notícia pelo (e não “através do”) rádio, pela imprensa, pela televisão.” 

Os manuais de português jurídico (COSTA, 2007; KASPARY, 2015) trazem a mesma restrição. Por outro lado, clássicos, como Machado de Assis, já empregaram o termo. Quem ousa dele discordar?

Ele creu que era assim, mas receou também que não fosse assim; faltava-lhe o trato suficiente das mulheres para ler através de uma negativa
(Dona Benedita: um retrato, Machado de Assis)

Creio que terão entendido isso mesmo, através da forma alegórica
(Verba testamentária, Machado de Assis)

Alguns gramáticos igualmente não condenam o uso da expressão “através de” no sentido  figurado em razão do seu emprego generalizado:

Através de. Está generalizado o emprego desta locução no sentido de ‘por meio de’, ‘por intermédio de’. Por isso, não há senão legitimá-lo: Soube da notícia através da imprensa. / Conseguiu emprego através de um amigo influente (CEGALLA, 2009, p. 60).

Através de pode equivaler [...] em sentido translato ou figurado, a ‘mediante’, ‘por meio de’ (Disse-lhe através de um amigo comum). Nesta última acepção, é impugnado por puristas, mas sem razão: é de largo uso entre os melhores escritores (NOUGUÉ, 2015, p. 384).

Até mesmo o conservador Napoleão Mendes de Almeida critica a rejeição exagerada do uso da expressão no sentido adaptado:

Não se deve cair no exagero de julgar que a locução só é possível quando significa “de um lado para o outro”, “de lado a lado” (Passou através da multidão – Passou a espada através do corpo). Não vemos erro em: “A palavra veio-nos através do francês”, como não vemos na passagem de Herculano: “Através  desses lábios inocentes murmuram durante alguns instantes as orações submissas” (ALMEIDA, 1981, p. 33).

Por fim, alguns dicionários já aceitam ambas as formas, ressaltando que o uso de “através de” na acepção de “por meio de” possa ser menos elegante, menos clássico e, por vezes, ocasionar dúvidas quanto ao sentido obtido.

Assim, o fundamento que mais parece adequado é, em caso de dúvidas de sentido, evitar o uso de “através de” com significado de “por meio de” e optar pela clareza. No entanto, ainda que o sentido esteja claro, a recomendação é não abusar desse uso da expressão, sendo aconselhável lançar mão de “por meio de”, “por intermédio de”, “mediante”, “via” ou, simplesmente, “por”.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Chope com roque

O aportuguesamento da grafia de palavras de outras línguas é comum. Não há estranheza na leitura de futebol (de football), surfe (surf) ou uísque (whisky).

E quanto a: “eslaide” (de slide)? “roque” (do bom e velho rock)? “chope” (de chopp e shoopp, em alemão)? “escâner” (scanner)? “leiaute (layout)?”

Pois, caso você tenha achado estranho, saiba que estas são grafias trazidas pelo Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa).

Dito isso, vamos ao que interessa: bora tomar um chope na praia este final de semana? Eu já estou de malas prontas, mas só vou se tiver roque!

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Saudades aqui, saudades acolá

 
Sempre ouvimos dizer que a palavra "saudade" é privativa da língua portuguesa. Nenhuma outra língua a teria em um vocábulo único, tampouco em termos de significado. Sentir saudade como sentimos, nem se fala, não é mesmo? 

Derivada do latim solitas, solitatis, soedade, soidade, sodade e suidade – em que solitas significa ‘solidão’, ‘desamparo’ –, de pronto já se diria que... sim!, a palavra é só nossa, visto que os sentidos impressos pelos vocábulos em latim e nas línguas dele derivadas não se afinam totalmente com o sentido da “nossa” saudade, que significa “lembrança nostálgica” ou “desejo de alguém ou alguma situação da qual se está privado” ou, ainda, “ausência de boas coisas, prazeres e emoções experimentadas e já passadas”.

No espanhol, soledad. Em catalão, soledat. O sentido, também nessas línguas – nostalgia do lar –, distancia-se levemente do nosso.

No entanto, entendedores relatam correspondência do termo na língua romena, com idêntico sentido português, mas em outra palavra: durere (para nós, dor; para eles, saudade).

O mesmo sentido português da palavra também estaria manifesto na língua árabe, na expressão alistiyáqu ''ilal watani (melhor ficar com a nossa singela "saudade").

E por que não dizer que os termos ingleses I miss... refletem exatamente o nosso sentimento de saudade? Mi manca, em italiano, igualmente. Me manques, en langue française...

Saudades, solitas, soledad, durere, alistiyáqu''ilal watani, I miss you, mi manca, me manques: em qualquer parte do mundo, sempre haverá isso que chamamos de "saudade"...

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Tá combinado, Vinícius


Hoje a tristeza tomou conta de mim. Acontece.
Não é só pelo jogo de Goiás e Goianésia. Cadê esse campeonato brasileiro que não começa...

Nada de mais, só o lamento de observar o quanto as pessoas podem ser implacáveis com a fragilidade de seus pares, ainda que as virtudes sejam infinitamente maiores. “Difícil lidar com isso. Melhor nem tentar”. Mundo triste, sem espaço para um momento de receio... Sensibilidade enganosa. Mundo coisificado de pessoas descartáveis, de relacionamentos sem profundidade representados pela preguiça de experimentar por completo, a parte boa e ruim...

Nessas horas, o “mãããinhê” do Samuel, o sorriso do Luca e a música me dão sentido. Não tive o primeiro. Sinto falta do meu menino que quer, de um jeito torto, mudar esse mundo. Tive o segundo, com um interesse que me dá esperança: “o que foi, mamãe?"... Tive a última também. Vinícius e Baden deram. Martinália cantou. E eu cantei junto.

Martin'ália - Pra que chorar
Vídeo e relato de Vinícius em 'Pra que chorar'...belo..

Pra que chorar 
Se o sol já vai raiar 
E o dia vai amanhecer 

Pra que sofrer 
Se a lua vai nascer 
E é só o sol se pôr 

Pra que chorar 
Se existe amor 
A questão é só de dar 
A questão é só de dor, de dor 

Quem não chorou 
Quem não se lastimou 
Não pode nunca mais dizer 

Pra que chorar, pra que sofrer 
Se há sempre um novo amor 
A cada novo amanhecer...


Ludmila Filha de Paulo sem nome de família Déroulède


Após alguns anos de convivência com minha grande amiga Verônica Alves, ela se atinou para a origem de meu nome. Não veio do nada a curiosidade. Em um dos meus impulsos por mais um curso, sobrou para a amiga-parceirona a missão de fazer a matrícula (eu estava fora de Goiânia), isso às 21:30, último dia de inscrição. Da história contada, surgiu o pedido para uma crônica, de “tão incrível que a Verônica ficou”. Retornemos à noite da matrícula, via app de mensagem:

__ Lud, preciso do nome dos seus pais.
__ Paulo Déroulède da Rocha e Nilze Helena Déroulède.
__ De onde vem o Pavlovna?
__ O contrato pergunta isso?
__ Não, eu que quero saber.
__ Posso te explicar depois? Vamos fazer a matrícula agora?
__ OK.

Dia seguinte, o app não tarda.

__ Oi. De onde vem o Pavlovna?
__ Bom dia! Sim, tá tudo bem aqui.
__ Fala, tô curiosa.
__ Pavlovna significa “filha de Paulo”. Meu pai se chama Paulo. Pavlov = Paulo; Na = filha. Ludmila filha de Paulo = Ludmila Pavlovna. Dãããr...
__ E o Déroulède?
__ Déroulède é nome composto do meu pai: Paulo Déroulède da Rocha.
__ Ué... então você não tem nome de família? 
__ Seria ‘Rocha’, do meu pai, ou ‘Martins Ferreira’, da minha mãe, mas eles não quiseram e botaram o Déroulède em nós – do nome composto dele – como sobrenome dos filhos.
__ E de onde vem ‘Paulo Déroulède’?
__ (arrependimento de ter pedido essa onça para fazer a minha matrícula...) Vem de Paul Déroulède, um cientista político francês admirado pelo meu avô biológico paterno.
__ Meu Deeeus...que interessante...
__ Nenhuma ascendência russa, polonesa ou francesa, Verônica. Tudo goiano de Rio Verde e de Buriti Alegre.
__ Muito melhor que Ludmila Martins da Rocha.
__ Eu ia me chamar Tatiana ou Janaína.
__ Piorou.

O relato dessa história repetiu-se por anos e anos ao longo da minha vida. Um dos mais constrangedores foi quando abri uma franquia de intercâmbio cultural em Goiânia, ligada ao escritório de Brasília. A pergunta sobre a origem do meu nome, feita pelo casal empreendedor que me entrevistava, exigia uma resposta que determinaria a autorização ou não para a abertura do meu escritório. Resolvi arriscar o pescoço e contar a verdade.

__ Oh, for Godness sake (puta que pariu...)!!    Honey, follow me... (pobre criatura, preste bem atenção).  We really liked you a lot and you are the right person for the job! (Apesar dessa história hedionda, você é a única coisa que nos restou).  Mas não a conte a nenhum cliente. A empresa é de intercâmbio cultural e seria muito bom que se pensasse que você de fato tem ascendência estrangeira (se você se chamasse ‘Janaína Martins da Rocha’ – nome casando com origem –, nenhum problema, mas chamar-se ‘Pavlovna Déroulède’ de Rio Verde das abóboras não dá, gata).

__ For sure! :/ 

Os inúmeros contatos com estrangeiros e brasileiros ao longo dos 4 anos de escritório de intercâmbio quase sempre se introduziam com a pergunta:


__ Ascendência russa?
__ Mais ou menos.... Boleye ili meneye...
__ Francesa? Polonesa?
__ Merde! Gówno!  Então! Inglaterra ou Austrália? Austrália é mais quente...

A coisa ficava mais delicada durante as reuniões nacionais em que os dirigentes das franquias se encontravam:

__ VOCÊ!!!! é Ludmila Pavlovna Déroulède? Meu Deeus... Achei que era loira, alta e gorda. Ascendência o quê?

Verônica Alves, acredito que a coisa agora vá melhorar para o meu lado. Ao ser perguntada sobre a origem do meu nome, direi: acesse meu blog. Lá se conta a história (preguiiiçaa).

Sabendo que dificilmente essas pessoas acessarão o espaço, pouparei tempo, explicações e algumas interjeições com o nome de Deus em vão. Assim, a dúvida dificilmente persistirá: a ascendência eurasiática/europeia tá na cara...basta olhar direitinho. Olhe mais um pouco. De perfil, olha de perfil! No escuro, de costas e debaixo do cobertor... deu?




segunda-feira, 7 de julho de 2014

A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer


É. Faz tempo que não passo por aqui. Os poucos que conhecem esse espaço e o acompanham perceberam. Alguns me perguntaram. É que a rotina não aliviou; ao contrário, pesou, com as inúmeras atividades e papéis, apesar de o filhote menor dormindo mais e a vida afetiva mais "tranquila': é aqui que a coisa pega.

E por causa de tudo que todos já sabem, mas se recusam a aceitar - nos aceitar -, é que eu resolvi transcrever um texto de Ruth Manus, do Estadão (confesso que eu não a conhecia).

A leitura me faz refletir e a reflexão, não raras vezes, rompe e faz sofrer, mas força a um passo a mais. Entre colchetes e em itálico, algumas interferências - minhas e sobre mim - que não alteram o grosso do texto. Talvez piore a percepção da realidade dessas mulheres, entre as quais me incluo. 

As diferenças básicas entre mim e a figura retratada no texto atêm-se, em especial, no fato de eu optar (característica inerente à "independência", que prefiro nominar de autonomia) por ser dona de casa, mãe e mergulhar em aventuras gastronômicas para mim e para os meus, além da busca permanente pelo bom currículo e da determinação posta em cada desafio profissional. Apesar de o texto bipolarizar mulheres e homens em um contexto aparentemente contraditório, chamo a atenção para a pergunta: o que nós, mulheres, de fato esperamos e queremos de nós? Talvez a resposta leal e destemida a esse questionamento seja a única realmente importante para o fim de nosso autoflagelo. 
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"Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

'Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.
Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.'

Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.

O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens,  homens e velhos homens. O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?

Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado [os meus pais, nem isso. Afinal, não passa de uma consequência natural do processo]. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.

Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho [e ainda assim trocamos, quase que intuitivamente, centenas delas]. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.

Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.

Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar [e que não cheiraríamos ao frescor do sabonete após preparamos o jantar - quando fosse do nosso desejo -, ao mesmo tempo em que corremos de um lado ao outro olhando a criança na cama?]. Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?

Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails [acho que faltou uma multiplicação aí], amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar [carro se lava?], 4 reuniões marcadas para amanhã, unha sem fazer e depilação sem desenhozinho, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.

“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade... Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”

Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto [e filet mignon, pasta con gamberone, salada de rúcula, vinho, luz de velas, mesa posta, música romântica], mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia, mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.

O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência? [e o que dizer daquele que diz pensar assim e que quer essa mulher, mas não consegue lidar com tudo à sua volta? não há nada pior que essa filosofia carregada de vazios].

E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.

No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta."
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Ainda não aprendi a diferença entre alvejante e água sanitária, mas minhas mãos sempre alternarão entre os destroços causados por esses produtos e pelo teclado do computador; entre o manuseio do papel toalha e o do calhamaço de teses e textos complexos; entre o empunhar da furadeira e o do microfone de um samba triste; entre o segurar de uma colher e de um copo de cerveja; entre o despir provocante de uma minicamisola e um gesto feio na hora da partida de futebol; entre a caneta e o afago.



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A mãe do noivo



A adolescência sempre me pareceu complexa e, ao mesmo tempo, uma fase indesculpável, ao menos na realidade em que me foi apresentada e vivida. Indesculpável pois as 'únicas' tarefas eram estudar, aprender, ir às dezenas de aulas e varrer a casa. Mas, ao contrário do que se possa pensar, as obrigações a mim impostas na tal fase (tirando a parte gostosa de varrer toooda a casa) sequer permitiram-me reflexões, escolhas ou mesmo o sentir do distanciamento da infância e das transformações. 

Estar aos 16 anos cursando uma faculdade de Direito não ajudou muito; melhor dizendo, piorou muito. A perdição foi bem retratada no formulário de inscrição do vestibular, em que marquei como primeira opção o curso de Direito (vencendo a disputa com a Música), como segunda, Biologia, e, finalmente, Jornalismo, enquanto o que eu havia decidido  mesmo (isso, determinação!) era Jornalismo (primeira opção), Música (segunda) e Biologia. Direito?? Ah, é... eu fiz Direito. De novo: primeira, Direito; segunda, Arquitetura; terceira, Nutrição.  Não era isso? 

Isso sem contar o sonho – mudo, por medo de espancamento – de trocar ‘tudo’ por aquela viagem ao mundo, sem volta, com uma mochila e 3 latas de farinha láctea, E de comprar uma casa com um lindo jardim, na cidade natal, em, no máximo, 6 meses, com o fruto do trabalho de professora de 5 aulas de piano semanais (cadê a viagem ao mundo?) E casar-me com o professor de matemática seguidor dos dogmas da tribo da sandália franciscana surrada, que resolveria todas as minhas aflições e faria de mim a mulher mais adulta e independente do mundo (professor de matemática que resolve todos os meus problemas = eu independente???? #ferrou...).

 

Foi aí que vi que precisava tomar um rumo na vida e decidi colocar a minha primeira aliança de compromisso – de coco (que máximo!) – com um garoto de 15 anos (alguém viu  um professor por aí?), que seria o pai dos meus 4 filhos com os quais eu jamais daria um grito sequer... então tá, gente!

Talvez seja por causa de todos esses planos frustrados, ou ilusões-graças-a-Deus  arrancadas, é que imaginemos que haja uma necessidade de continuidade da árvore, cujos frutos nos vingarão. A fórmula na qual se acredita, dando continuidade aos sonhos adolescentes, consistiu inicialmente em não permitir que meu filho entrasse na faculdade aos 16.

Missão cumprida. Samuel aos 16 no segundo ano do segundo grau ainda! O garoto é diferente de mim! Saberá o que fazer da vida! Primeira opção: ENGENHARIA MECATRÔNICA!!!! (garoto de visão!); segunda opção: NANOTECNOLOGIA! (uau! na linha da primeira!); terceira opção: MÚSICA! Hein?). De novo, Samuel, você é capaz!!!: Primeira opção: ROBÓTICA! (uhu!); segunda opção: ENGENHARIA ELETRÔNICA que pega a mecatrônica e a robótica, com possibilidade de doutorado no MIT! Caraaaacaaa! Isso merece sangrar o dedo na vogal: caraaaacaaaaaaaaaa!; terceira opção: FÍSICA MÉDICA, e só tem 3 caras que fazem isso NO MUNDO! Que gênio!

___ Peraí, mãe! Decidi! Única opção: teatro. #filhodap*&%#@aaaaaaaaaaaaaaaa

Então vi que meu filho honraria a adolescência que pouco tive e que suas decisões, quando tomadas, seriam bem mais conscientes e livres que as minhas. Para contribuir um pouco com esse processo, eu me recusaria a incentivá-lo nas mesmas ilusões.   
Jamais. 

___ Mãe, vou pedir a Carol em namoro oficialmente. Me ajuda a escolher a aliança?

___ Aliança? Aliança!!!!!!????? De quê?!!!!!! Coco??????????

___ Não, de aço com fio de ouro.

___ Claro! Vamos escolher essa aqui. É mais bonita que a outra! Eu pago a diferença!!! 

Jamais...