É. Faz tempo que não passo por aqui. Os poucos que conhecem esse espaço e o acompanham perceberam. Alguns me perguntaram. É que a rotina não aliviou; ao contrário, pesou, com as inúmeras atividades e papéis, apesar de o filhote menor dormindo mais e a vida afetiva mais "tranquila': é aqui que a coisa pega.
E por causa de tudo que todos já sabem, mas se recusam a aceitar - nos aceitar -, é que eu resolvi transcrever um texto de Ruth Manus, do Estadão (confesso que eu não a conhecia).
A leitura me faz refletir e a reflexão, não raras vezes, rompe e faz sofrer, mas força a um passo a mais. Entre colchetes e em itálico, algumas interferências - minhas e sobre mim - que não alteram o grosso do texto. Talvez piore a percepção da realidade dessas mulheres, entre as quais me incluo.
As diferenças básicas entre mim e a figura retratada no texto atêm-se, em especial, no fato de eu optar (característica inerente à "independência", que prefiro nominar de autonomia) por ser dona de casa, mãe e mergulhar em aventuras gastronômicas para mim e para os meus, além da busca permanente pelo bom currículo e da determinação posta em cada desafio profissional. Apesar de o texto bipolarizar mulheres e homens em um contexto aparentemente contraditório, chamo a atenção para a pergunta: o que nós, mulheres, de fato esperamos e queremos de nós? Talvez a resposta leal e destemida a esse questionamento seja a única realmente importante para o fim de nosso autoflagelo.
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'Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.
Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.
Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.
Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.'
Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.
O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens, homens e velhos homens. O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?
Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado [os meus pais, nem isso. Afinal, não passa de uma consequência natural do processo]. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.
Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho [e ainda assim trocamos, quase que intuitivamente, centenas delas]. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas, escuta, alguém lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar [e que não cheiraríamos ao frescor do sabonete após preparamos o jantar - quando fosse do nosso desejo -, ao mesmo tempo em que corremos de um lado ao outro olhando a criança na cama?]. Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?
Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails [acho que faltou uma multiplicação aí], amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar [carro se lava?], 4 reuniões marcadas para amanhã, unha sem fazer e depilação sem desenhozinho, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.
“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade... Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”
Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto [e filet mignon, pasta con gamberone, salada de rúcula, vinho, luz de velas, mesa posta, música romântica], mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia, mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.
O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência? [e o que dizer daquele que diz pensar assim e que quer essa mulher, mas não consegue lidar com tudo à sua volta? não há nada pior que essa filosofia carregada de vazios].
E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.
No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta."
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Ainda não aprendi a diferença entre alvejante e água sanitária, mas minhas mãos sempre alternarão entre os destroços causados por esses produtos e pelo teclado do computador; entre o manuseio do papel toalha e o do calhamaço de teses e textos complexos; entre o empunhar da furadeira e o do microfone de um samba triste; entre o segurar de uma colher e de um copo de cerveja; entre o despir provocante de uma minicamisola e um gesto feio na hora da partida de futebol; entre a caneta e o afago.

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