Quando a palavra escrita fala mais



segunda-feira, 7 de julho de 2014

A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer


É. Faz tempo que não passo por aqui. Os poucos que conhecem esse espaço e o acompanham perceberam. Alguns me perguntaram. É que a rotina não aliviou; ao contrário, pesou, com as inúmeras atividades e papéis, apesar de o filhote menor dormindo mais e a vida afetiva mais "tranquila': é aqui que a coisa pega.

E por causa de tudo que todos já sabem, mas se recusam a aceitar - nos aceitar -, é que eu resolvi transcrever um texto de Ruth Manus, do Estadão (confesso que eu não a conhecia).

A leitura me faz refletir e a reflexão, não raras vezes, rompe e faz sofrer, mas força a um passo a mais. Entre colchetes e em itálico, algumas interferências - minhas e sobre mim - que não alteram o grosso do texto. Talvez piore a percepção da realidade dessas mulheres, entre as quais me incluo. 

As diferenças básicas entre mim e a figura retratada no texto atêm-se, em especial, no fato de eu optar (característica inerente à "independência", que prefiro nominar de autonomia) por ser dona de casa, mãe e mergulhar em aventuras gastronômicas para mim e para os meus, além da busca permanente pelo bom currículo e da determinação posta em cada desafio profissional. Apesar de o texto bipolarizar mulheres e homens em um contexto aparentemente contraditório, chamo a atenção para a pergunta: o que nós, mulheres, de fato esperamos e queremos de nós? Talvez a resposta leal e destemida a esse questionamento seja a única realmente importante para o fim de nosso autoflagelo. 
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"Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

'Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.
Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.'

Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.

O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens,  homens e velhos homens. O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?

Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado [os meus pais, nem isso. Afinal, não passa de uma consequência natural do processo]. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.

Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho [e ainda assim trocamos, quase que intuitivamente, centenas delas]. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.

Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.

Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar [e que não cheiraríamos ao frescor do sabonete após preparamos o jantar - quando fosse do nosso desejo -, ao mesmo tempo em que corremos de um lado ao outro olhando a criança na cama?]. Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?

Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails [acho que faltou uma multiplicação aí], amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar [carro se lava?], 4 reuniões marcadas para amanhã, unha sem fazer e depilação sem desenhozinho, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.

“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade... Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”

Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto [e filet mignon, pasta con gamberone, salada de rúcula, vinho, luz de velas, mesa posta, música romântica], mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia, mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.

O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência? [e o que dizer daquele que diz pensar assim e que quer essa mulher, mas não consegue lidar com tudo à sua volta? não há nada pior que essa filosofia carregada de vazios].

E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.

No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta."
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Ainda não aprendi a diferença entre alvejante e água sanitária, mas minhas mãos sempre alternarão entre os destroços causados por esses produtos e pelo teclado do computador; entre o manuseio do papel toalha e o do calhamaço de teses e textos complexos; entre o empunhar da furadeira e o do microfone de um samba triste; entre o segurar de uma colher e de um copo de cerveja; entre o despir provocante de uma minicamisola e um gesto feio na hora da partida de futebol; entre a caneta e o afago.



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A mãe do noivo



A adolescência sempre me pareceu complexa e, ao mesmo tempo, uma fase indesculpável, ao menos na realidade em que me foi apresentada e vivida. Indesculpável pois as 'únicas' tarefas eram estudar, aprender, ir às dezenas de aulas e varrer a casa. Mas, ao contrário do que se possa pensar, as obrigações a mim impostas na tal fase (tirando a parte gostosa de varrer toooda a casa) sequer permitiram-me reflexões, escolhas ou mesmo o sentir do distanciamento da infância e das transformações. 

Estar aos 16 anos cursando uma faculdade de Direito não ajudou muito; melhor dizendo, piorou muito. A perdição foi bem retratada no formulário de inscrição do vestibular, em que marquei como primeira opção o curso de Direito (vencendo a disputa com a Música), como segunda, Biologia, e, finalmente, Jornalismo, enquanto o que eu havia decidido  mesmo (isso, determinação!) era Jornalismo (primeira opção), Música (segunda) e Biologia. Direito?? Ah, é... eu fiz Direito. De novo: primeira, Direito; segunda, Arquitetura; terceira, Nutrição.  Não era isso? 

Isso sem contar o sonho – mudo, por medo de espancamento – de trocar ‘tudo’ por aquela viagem ao mundo, sem volta, com uma mochila e 3 latas de farinha láctea, E de comprar uma casa com um lindo jardim, na cidade natal, em, no máximo, 6 meses, com o fruto do trabalho de professora de 5 aulas de piano semanais (cadê a viagem ao mundo?) E casar-me com o professor de matemática seguidor dos dogmas da tribo da sandália franciscana surrada, que resolveria todas as minhas aflições e faria de mim a mulher mais adulta e independente do mundo (professor de matemática que resolve todos os meus problemas = eu independente???? #ferrou...).

 

Foi aí que vi que precisava tomar um rumo na vida e decidi colocar a minha primeira aliança de compromisso – de coco (que máximo!) – com um garoto de 15 anos (alguém viu  um professor por aí?), que seria o pai dos meus 4 filhos com os quais eu jamais daria um grito sequer... então tá, gente!

Talvez seja por causa de todos esses planos frustrados, ou ilusões-graças-a-Deus  arrancadas, é que imaginemos que haja uma necessidade de continuidade da árvore, cujos frutos nos vingarão. A fórmula na qual se acredita, dando continuidade aos sonhos adolescentes, consistiu inicialmente em não permitir que meu filho entrasse na faculdade aos 16.

Missão cumprida. Samuel aos 16 no segundo ano do segundo grau ainda! O garoto é diferente de mim! Saberá o que fazer da vida! Primeira opção: ENGENHARIA MECATRÔNICA!!!! (garoto de visão!); segunda opção: NANOTECNOLOGIA! (uau! na linha da primeira!); terceira opção: MÚSICA! Hein?). De novo, Samuel, você é capaz!!!: Primeira opção: ROBÓTICA! (uhu!); segunda opção: ENGENHARIA ELETRÔNICA que pega a mecatrônica e a robótica, com possibilidade de doutorado no MIT! Caraaaacaaa! Isso merece sangrar o dedo na vogal: caraaaacaaaaaaaaaa!; terceira opção: FÍSICA MÉDICA, e só tem 3 caras que fazem isso NO MUNDO! Que gênio!

___ Peraí, mãe! Decidi! Única opção: teatro. #filhodap*&%#@aaaaaaaaaaaaaaaa

Então vi que meu filho honraria a adolescência que pouco tive e que suas decisões, quando tomadas, seriam bem mais conscientes e livres que as minhas. Para contribuir um pouco com esse processo, eu me recusaria a incentivá-lo nas mesmas ilusões.   
Jamais. 

___ Mãe, vou pedir a Carol em namoro oficialmente. Me ajuda a escolher a aliança?

___ Aliança? Aliança!!!!!!????? De quê?!!!!!! Coco??????????

___ Não, de aço com fio de ouro.

___ Claro! Vamos escolher essa aqui. É mais bonita que a outra! Eu pago a diferença!!! 

Jamais...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Poema


"Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente,
passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim,
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás..."

 (Ney Matogrosso, mas poderia ser minha)

Foto: Lucas Carvalho

Um dos momentos mais lindos que a música e o músico me proporcionaram, 
vendo-o, ouvindo-o e sentindo-o. 
Valeu, Ney, por me emprestar suas palavras e me ajudar a acordar sem medo.


Dê um play. Vale a pena.
http://letras.mus.br/ney-matogrosso/169321/



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Luares



Cabe registrar.

Em tempos de lua cheia, repleta de melancolia e esperança, emocionante a Clair de Lune de Debussy servindo de tema da singela e delicada animação do Google de hoje, em que as luzes são acionadas pelas belas notas, até o derradeiro e gentil encontro. Cheguei a tocá-la algumas vezes na época em que a música não era somente parte da minha vida, mas, talvez, o grande sentido dela. Saudades de algum pedaço que se perdeu sem, sequer, se saber exatamente como.


http://www.4shared.com/mp3/oYm_y4G-/CLAUDE_DEBUSSY_-_clair_de_lune.htm




terça-feira, 13 de agosto de 2013

Não tem ...


Trenzinho Percy/Thomas e seus amigos: 65 reais;
DVD 'Procurando Nemo': 44 reais;
Organizar os itens do Luca e ainda ouvir ele falando “Calacas, que bagunça, mamãe!”: não tem preço.

Camiseta manga curta, tam. 24 a 36 meses: 30 reais;
Ferro de passar roupa Black and Decker: 80 reais;
Passar roupas acumuladas em 2 semanas: não tem preço.

Sandálias multimarcas: 130 reais;
Sabão neutro em quadro: 0,30 reais;
Lavar 15 sandálias (1/3 do total) após passar a roupa acima: não tem preço.

Queijo curado: 7 reais
Forno elétrico: 550 reais;
Fracassar na receita do pão de queijo depois da expectativa de meia hora assando: não tem preço.

Alvejante e ariel líquido: 12 reais;
Porcelanato fosco Elisabeth: 40 reais/m²;
Lavar o chão da casa inteira: não tem preço.

Dorflex: 0,40 reais;
Cirurgia na coluna: 15 mil reais;
Faxinar a vida em pleno sábado e andar semelhantemente a alguma coisa entre o hominoide e o hominídeo: não tem graça.

Mas a linda noite compensou tudo...:

TV LCD LG 32’’: 900 reais;
Prêmio do programa de reality show: 2 milhões de reais;
Ser obrigada, por alguém que se diz sua “amiga”, a assistir “A Fazenda”: não tem alma que aguente.

Maaaaasssssss no domingo... delícia totaaaal....:

Salário de estagiário no MPF: 960 reais;
Inscrição para o concurso: zero real;
Fiscalizar o concurso de estagiários em pleno domingo do dia dos pais, às 7:30 da manhã: não tem amor próprio.


Ao olhar para si mesma e perceber-se em algum 'sacrifício', não há nisso qualquer ética máxima, ou dom desinteressado (desconsiderem o pleonasmo), ou força. Há  tarefas a serem feitas, missões a cumprir e se não há, agora, tanto espaço para questionamentos, uma coisa é certa: o sono rápido do meu filho no meio da tarde silenciosa, o cheiro de casa limpa e perfumada e o arroz-doce feito pela mãe da 'amiga' de  "A Fazenda" são a paga por esses sacrifícios nada desinteressados e puros, pois, se assim fossem, não haveria deleite com essas pequenas recompensas que, de fato, não têm preço...




quarta-feira, 31 de julho de 2013

As sombras na Caverna

No agitar dessa vida - acredito que na outra a coisa seja mais tranquila - as contradições e as dúvidas intermináveis de meninos-grandes que somos nos levam, a todo instante, a um bater de cabeça (quase literal), de um lado ao outro, que explode em sentimentos mas não se explica. Ou, ao contrário, explica-se demais, mas não traz o autoconhecimento e o metaconhecimento, necessários à tolerância e à generosidade, penso eu. Ou, sim, traz algum autoconhecimento que não consegue acalmar a alma (diferente de espírito), pois que ancorado tão somente na teoria distanciada da prática; ou que dá a sensação de que algo se acalmou, mas não nos realiza. E seguimos, pouco felizes - para não ser trágica - por não sermos capazes de transpor velhos dogmas, velhos hábitos, velhos sonhos, velhas sombras nesse bater de cabeças, que poderia ser bom... E deixamos. Simplesmente, deixamos. Ainda que não 'simplesmente', deixamos, como se não houvesse qualquer outra boa e proveitosa solução.

Como no Mito da Caverna, em que sombras e sons confundem a realidade e acabam por tornar-se a própria realidade, negligenciamos a essência e as demais possibilidades. Até que se ouse libertar via escalada do muro - desvendando que as sombras eram de si mesmo, pesadas demais ou sobrevalorizadas, e não somente do outro - já se escravizou. E, seguindo a proposta aberta e cara de Sócrates (sem querer me comparar ao sujeito, sei o quanto é caro ser aberta), ai de quem ousa descortinar o mito, a parcialidade, o fragmento e mostrar que o mundo e a vida podem ter - e têm - outros conceitos, além dos já 'fadigadamente' conhecidos: para evitar que se repita a morte do mestre, será no mínimo ignorado, abandonado. 'Melhor' acorrentar-se às falsas crenças, aos preconceitos, ao engano, permanecendo inertes nas poucas, pouquíssimas e desafiadoras oportunidades. Uma pena e uma perda irreparáveis.

Nessa busca por compreender a complexidade daquilo que gira, inexplicavelmente, nessa circunferência de 50 cm - obviamente sem a leitura de obras de que a pouca disposição me priva e que só faz sentido se acompanhada de perdão, reflexão, senso crítico e amor -, encontrei um precioso texto enviado por um colega, que, de modo mais simples, direto e espiritual, remeteu-me, em minhas associações, à Caverna. O tema? a mais assustadora sombra de nós mesmos, a sombra dos outros e a sombra que ofertamos aos outros, até sem saber, de tão sombrios que podemos ser. Enfim, a sombra que deve deixar de ser foco. 

Espero que gostem e que o texto gere mais frutos e menos debates teóricos de âmagos.


"Quando Alexandre, o Grande, tinha 19 anos, foi certa vez assistir a um rodeio com seu pai, Filipe II. E notou que ninguém conseguia montar um dos cavalos. Todos os cavaleiros eram jogados ao chão. Finalmente, Alexandre disse ao pai: “Gostaria de ter sua permissão para montar aquele cavalo. Acho que consigo.”

O pai, embora hesitante, deu-lhe permissão e Alexandre desceu à arena, colocou a mão sobre o elegante garanhão negro, virou-lhe a cabeça na direção do Sol e montou-o. Cavalgou nele em volta do estádio, parou, desmontou e o amarrou num poste. A multidão se pôs em pé para aplaudi-lo.

Quando Alexandre voltou para junto de seu pai, que estava na galeria real, Filipe lhe perguntou: “Filho, como é que você conseguiu fazer isso?” Alexandre respondeu: “Foi simples, pai. Eu apenas virei a cabeça do cavalo para o Sol, de modo que ele não ficasse assustado com minha sombra. Com a sombra atrás dele, o cavalo não ficou com medo de mim.”

Alexandre mais tarde relembrou que seu mestre, Aristóteles, lhe dissera: “Mantenha sempre sua sombra atrás de você, e conquistará o mundo.”

Paulo não era nenhum iniciante quando escreveu a epístola aos Filipenses. Já era idoso e havia alcançado uma experiência espiritual bem mais rica do que a maioria dos cristãos. Mas ainda assim ele reconhecia não ter alcançado a perfeição. E esquecendo-se das coisas passadas, ele mantinha os olhos fitos em seu alvo: Deus.

Nós também não devemos nos culpar porque ainda não atingimos o alvo. Seremos culpados se não prosseguirmos e nos acomodarmos com as realizações passadas.
Algumas pessoas olham para o Oeste, lamentando o Sol poente. Outros contemplam o nascer do Sol, animados com os primeiros clarões da alvorada. É melhor olhar para a frente, para o caminho que precisamos trilhar, do que olhar para o caminho já percorrido.
Como cristãos, devemos manter as sombras e fracassos do passado atrás de nós e virar o rosto na direção do Sol da Justiça. Os olhos precisam preceder os pés. Se nosso olhar não estiver nEle, os pés se desviarão. (Rubem M. Scheffel).



"Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo. 
Filipenses 3:13, 14".

 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Doce do dia


Ufa! Quanto tempo! 

Ainda estou me organizando nas muitas coisas por fazer, a começar pelas intermináveis gavetas. Por enquanto, deixo aqui algumas breves descobertas de frases gostosas e confortantes, como:


"O amor dá prova de si mesmo existindo; 
o amor só se sustenta no amor" (Be Lins ??)

ou 

"Na sala pactuam-se falhos e questionáveis contratos; na cozinha, constroem-se eternas alianças" - e eu não sei?
(autoria desconhecida, mas poderia ser minha).

Determinada. Aceitando-me. Bom demais. 




terça-feira, 16 de abril de 2013

Amamos, compartilhamos



comida japonesa - música - risos - tapioca - cheiro - café - beijo - trabalho - jantares - nossa rua - parque - stella artois - viagem - cozinhar - cinema - pipoca - mais beijovocê - eu - casa - rock - hotel - guitarra - voz - salmão - chama - azeite grego(...) - jamon - mojito - mesa posta - café da manhã - cama cheirosa - bom humor - chico buarque - vinho - samba-bossa - blog - amigos - desajeito - assuntos sem fim - silêncio - museu - paz - reconciliação - carinho - romantismo - artes - parceria - presença - sedução - outras stella artois - batatasdedicação - ervas - boca - churrasco - mercado municipal - projetos - futuro superação - maturidade - possibilidades - amor.

"É errado pensar que o amor vem do companheirismo de longo tempo ou do cortejo perseverante. 
O amor é filho da afinidade espiritual e a menos que esta afinidade seja criada em um instante, 
ela não será criada em anos, ou mesmo em gerações.

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto
no exato ponto em que foi interrompido. 

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quanto das impossibilidades vividas.

 

Afinidade é retomar a relação no ponto em que
parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais, a expressão do outro sob a
forma ampliada do eu individual aprimorado."

Khalil Gibran

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Enquanto



Hoje o texto não é meu. E quando é, não é, pois vem das impressões em torno, de você, dele, dela, de nós, de quem não conheço, de quem virá, do que imagino ser, do que gostaria que fosse, do que é. Enfim.

Mas hoje, enquanto ainda não me vem a inspiração, enquanto a respiração falha, enquanto expirar por vezes é difícil e enquanto o frio me paralisa - gosto muito do sol -, o texto realmente não conseguirá ser meu. Vem do Osório, que trouxe o Chico. Aliás, quantos grandes Chicos por aí. O Buarque, o Sá, o Diaz. Anysio, Lopes. E outros que a limitação da autora não permite citar. Enquanto isso, enquanto aquilo, o Chico me leva com ele.


Me Leva Contigo

Me leva contigo nesse teu embalo
Na tua certeza eu confio e até me calo
Eu quero com prazer, amor, a tua pureza
Esconderei bem fundo de minha alma
Tua riqueza

Me leva contigo pro teu aconchego
Na tua firmeza eu encontro meu sossego
Me leva já daqui, amor, e não demoras
Eu quero em teus braços ver passar eternas horas

Cadê o medo? Hoje bem cedo ainda senti
Mas tudo acabou, na fé do amor me envolvi
Bola pra frente, a alegria não tem preço
A tristeza chorará, pois perderá meu endereço.


Autor: Chico da Silva, via Osório. Obrigada por esse sorriso discreto que saiu daqui agora, Osório.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Entre a Consolação e a Augusta



Atrevimento meu escrever sobre uma cidade que tão pouco conheço – se é que se pode dizer conhecê-la minimamente –, mas numa São Paulo de tantas, a minha singela versão sobre a democrática megacidade, credenciada pela própria experiência, não seria tão atrevida assim. Acrescentar relatos a ela seria redundância, mas desenhar as minhas  próprias vivências e sentimentos ali, não, ainda que em 30 linhas.

O roteiro seria quase todo cumprido. Não nos culpemos por querer ficar mais meia horinha na cama no dia seguinte à chegada tardia no hotel e após a inesperada experiência notívaga de um restaurante ao qual se paga 65 reais na noite bem servida. Quem quiser experimentar o estabelecimento comercial em questão - “Sujinho” - não tardará em concordar comigo.

Atraída pelas inúmeras possibilidades da cidade, difícil pretender-se tanto em pouco tempo. No quadrilátero da Estação da Luz, a Pinacoteca e o MLP encantam; ela mais; ele, com a precisão e ternura de seus escritos e tecnologia interativa, torna tudo mais verossímil. Até mesmo o verde e flores do Parque ao lado, agarrados à vizinhança de esqueletos de concreto e aço dessa cidade de excessos e contrastes, parecem inusitados. Imagens fortes e entrelaçadas que nos pegam de surpresa, em um momento despretensioso, em que 'só' se intencionava tomar um café.

Dispenso o Bom Retiro, 'bom' para eles, 'retiro' para mim. Quantos reais retirados mesmo? Esquece, meu! 

A imperativa ida ao Mercado Municipal, alimentada por esta apaixonada por cozinha, cheiros, sabores e 'alguma' cerveja, revelou-se graciosa. E foi andando em meio aos ameaçadores camarões que, em busca de um presente para o estômago, veio a surpresa não só com o famoso sanduíche de chouriço, mas com o arrebatador Henrique do licor, da pinga e do mapa, desenhado ali mesmo.

Após o riso incontido da noite que se seguiu, do carpaccio (desta vez cru! vejam só!), dos drinks espanhóis, do pedaço de pizza do Pedaço de Pizza (tudo indicação do Henrique) e da calmaria das instigadoras e emocionantes obras do MASP - que nos proporcionam a colheita de uma dose diária de esperança e nos convidam a vencer os obstáculos apresentados por essas terras supostamente duras e pela dureza de nossa alma - é que me despedi, até a próxima garoa.


Ouso discordar de alguns.
Existe amor em São Paulo.