A recente tragédia no estado do Rio de Janeiro nos torna ainda menores, não 'somente' pelas dimensões épicas do episódio e pela nossa incapacidade e inoperância frente a ele, mas por apontar com crueldade àqueles que dele não padecem (entre os quais me incluo) a pequenez de alma vivida no dia a dia e dos problemas, reais, mas menos pesados que supomos, bem menos.
Verdade que a realidade de cada um delimita a sua dor e difícil atentar que ela é mais que romântica e burguesa, pois beira o adjetivo "vergonhosa", até que nos atentamos. Diante - mas ainda estáticos - de perdas irreparáveis como as mortes reais no Rio, em Minas e mundo afora, percebemos que nossas mortes internas são ressuscitáveis, aquelas não. E é exatamente aí que nos tornamos maiores e mais fortes.
Pedreiro perde filho de 2 anos, esposa e mãe; recebe abrigo seguro mas se recusa: prefere ser voluntário e ajudar a salvar os demais, ao tempo em que enterra os que ama. As lágrimas - necessárias - finalmente caem por alguns minutos. A vida, contudo, impõe-lhe mais, guiar bombeiros e médicos pela região devastada e tão bem conhecida dele. E por ali ele vai, resoluto.
Enquanto isso, lamentamos com a mais profunda dor a frustração dos nossos planos padrões, talvez por sabermos da nossa capacidade de realizá-los, é verdade, e não nos conformamos com o que a vida nos apresenta no momento: "é o que tem pra hoje."
Com diz um amigo muito querido, "começamos 2011 foi é bem, Lud; deixemos as dúvidas e dores em 2010"; em conversas como essas, com pessoas que realmente se ocupam da amizade consciente, não tendenciosa e da solidariedade, e no reflexo da luz da TV noticiando a tragédia maior, os problemas - muitas vezes representados na figura de pessoas indispostas a amar e a se doar com o necessário sacrifício; das perdas financeiras; da obra inacabada; do filho por vir sem as condições emocionais, afetivas e sem o teto confortável sonhados; da incompreensão; da acusação desferida contra o outro para ocultar e justificar a própria inércia, o próprio caráter comprometido, as próprias fraudes, a perdição total e o aniquilamento de valores - passam a ser vistos com a necessária autoestima e amor próprio e nos envergonhamos da autopiedade, da condição de humilhação que permitimos nos seja colocada e - na verdade - nos colocamos.
A famosa frase de consultório, dita sem a necessária reflexão e profundidade, se repete sem o menor constrangimento: "ninguém é responsável pela (in)felicidade do outro". A palavra 'responsabilidade' é banalizada por ser pesada demais pra quem não a compreende; assim, adere-se, sem qualquer análise, ao quase jargão; mas somos, no mínimo, responsáveis pelo nosso comportamento nas relações a que nos propomos e na medida que nisso negligenciamos, afetamos tremendamente a vida alheia, não tão alheia assim, pois nela nos entrelaçamos voluntariamente.
A meta de refazimento pessoal, como a do pedreiro, com dignidade e determinação com os nossos e com o desconhecido é premente. Acordemos, finalmente, para a lição adquirida, não só de responsabilidade com a vida 'alheia', mas de solidariedade e disposição.
A minha eutanásia cessou e a vida abundante se consolida a cada instante. Solidarizo-me com o Rio, solidarizo-me com as minhas tragédias pessoais. Guiemos o rumo da nossa história, como o pedreiro determinado, e paremos com o "deixa a vida me levar, vida leva eu". Não fosse o parto iminente, eu estaria lá com ele.

5 comentários:
Ludmila, "luz" de "milhas". Assim vejo você como uma luz que pode ser vista do longe. A conheço há muitos e muitos anos e difícil encontrar alguém de caráter tão íntegro e solidário, mesmo no escuro e na solidão, sem farsas, crua, sem a necessidade de que ninguém esteja por perto pra ver. Essa é a maior herança que seus filhos receberão de você e eu poderei dizer um dia que fiz parte dessa história de integridade e doação. Sei que estaria lá ao lado do pedreiro na tragédia do Rio, se pudesse, assim como eu estou ao seu lado. Do seu amigo de sempre, Davi.
epa, epa, epa! Davi de Brasília? é você mesmo?
Vamos às perguntas:
1) como soube do meu blog?
2) como soube que estou grávida? (essa é meio óbvia, caso tenha visto o blog antes);
3) quem disse que está do meu lado se não nos falamos há mais de 1 ano? desnaturado.
Davi, obrigada pelo carinho. Sinto falta das nossas conversas e realmente espero encontrá-lo para botá-las em dia. Meu email é lderoulede@hotmail.com
Meu filhote nasce na próxima semana. abraços, Mila
Olá, colega. Pois é... estou dirigindo porque não tenho opção. O salto alto uso só vez ou outra agora. Hoje senti falta dele e talvez isso, aliado ao sorriso que você viu, sejam o símbolo de uma nova fase da minha vida, após um ano triste e conturbado. Também representarei isso com uma música:
"Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido...
Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras,
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio.
Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido
Começar de novo..."
Volto à Ludmila que havia esquecido de si mesma e sem retrocessos porque voltar às histórias intensamente vividas e mal resolvidas é andar pra trás. Não tenho outro caminho a seguir, senão o desse horizonte vasto que se apresenta diante de mim.
Abraços fraternos,
Ludmila
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