No agitar dessa vida - acredito que na outra a coisa seja mais tranquila - as contradições e as dúvidas intermináveis de meninos-grandes que somos nos levam, a todo instante, a um bater de cabeça (quase literal), de um lado ao outro, que explode em sentimentos mas não se explica. Ou, ao contrário, explica-se demais, mas não traz o autoconhecimento e o metaconhecimento, necessários à tolerância e à generosidade, penso eu. Ou, sim, traz algum autoconhecimento que não consegue acalmar a alma (diferente de espírito), pois que ancorado tão somente na teoria distanciada da prática; ou que dá a sensação de que algo se acalmou, mas não nos realiza. E seguimos, pouco felizes - para não ser trágica - por não sermos capazes de transpor velhos dogmas, velhos hábitos, velhos sonhos, velhas sombras nesse bater de cabeças, que poderia ser bom... E deixamos. Simplesmente, deixamos. Ainda que não 'simplesmente', deixamos, como se não houvesse qualquer outra boa e proveitosa solução.
Como no Mito da Caverna, em que sombras e sons confundem a realidade e acabam por tornar-se a própria realidade, negligenciamos a essência e as demais possibilidades. Até que se ouse libertar via escalada do muro - desvendando que as sombras eram de si mesmo, pesadas demais ou sobrevalorizadas, e não somente do outro - já se escravizou. E, seguindo a proposta aberta e cara de Sócrates (sem querer me comparar ao sujeito, sei o quanto é caro ser aberta), ai de quem ousa descortinar o mito, a parcialidade, o fragmento e mostrar que o mundo e a vida podem ter - e têm - outros conceitos, além dos já 'fadigadamente' conhecidos: para evitar que se repita a morte do mestre, será no mínimo ignorado, abandonado. 'Melhor' acorrentar-se às falsas crenças, aos preconceitos, ao engano, permanecendo inertes nas poucas, pouquíssimas e desafiadoras oportunidades. Uma pena e uma perda irreparáveis.Nessa busca por compreender a complexidade daquilo que gira, inexplicavelmente, nessa circunferência de 50 cm - obviamente sem a leitura de obras de que a pouca disposição me priva e que só faz sentido se acompanhada de perdão, reflexão, senso crítico e amor -, encontrei um precioso texto enviado por um colega, que, de modo mais simples, direto e espiritual, remeteu-me, em minhas associações, à Caverna. O tema? a mais assustadora sombra de nós mesmos, a sombra dos outros e a sombra que ofertamos aos outros, até sem saber, de tão sombrios que podemos ser. Enfim, a sombra que deve deixar de ser foco.
Espero que gostem e que o texto gere mais frutos e menos debates teóricos de âmagos.
"Quando Alexandre, o Grande, tinha 19 anos, foi certa vez assistir a um rodeio com seu pai, Filipe II. E notou que ninguém conseguia montar um dos cavalos. Todos os cavaleiros eram jogados ao chão. Finalmente, Alexandre disse ao pai: “Gostaria de ter sua permissão para montar aquele cavalo. Acho que consigo.”
O pai, embora hesitante, deu-lhe permissão e Alexandre desceu à arena, colocou a mão sobre o elegante garanhão negro, virou-lhe a cabeça na direção do Sol e montou-o. Cavalgou nele em volta do estádio, parou, desmontou e o amarrou num poste. A multidão se pôs em pé para aplaudi-lo.
Quando Alexandre voltou para junto de seu pai, que estava na galeria real, Filipe lhe perguntou: “Filho, como é que você conseguiu fazer isso?” Alexandre respondeu: “Foi simples, pai. Eu apenas virei a cabeça do cavalo para o Sol, de modo que ele não ficasse assustado com minha sombra. Com a sombra atrás dele, o cavalo não ficou com medo de mim.”
Alexandre mais tarde relembrou que seu mestre, Aristóteles, lhe dissera: “Mantenha sempre sua sombra atrás de você, e conquistará o mundo.”
Paulo não era nenhum iniciante quando escreveu a epístola aos Filipenses. Já era idoso e havia alcançado uma experiência espiritual bem mais rica do que a maioria dos cristãos. Mas ainda assim ele reconhecia não ter alcançado a perfeição. E esquecendo-se das coisas passadas, ele mantinha os olhos fitos em seu alvo: Deus.
Nós também não devemos nos culpar porque ainda não atingimos o alvo. Seremos culpados se não prosseguirmos e nos acomodarmos com as realizações passadas.
Algumas pessoas olham para o Oeste, lamentando o Sol poente. Outros contemplam o nascer do Sol, animados com os primeiros clarões da alvorada. É melhor olhar para a frente, para o caminho que precisamos trilhar, do que olhar para o caminho já percorrido.
Como cristãos, devemos manter as sombras e fracassos do passado atrás de nós e virar o rosto na direção do Sol da Justiça. Os olhos precisam preceder os pés. Se nosso olhar não estiver nEle, os pés se desviarão. (Rubem M. Scheffel).
"Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que
diante de mim estão, prossigo para o alvo.
Filipenses 3:13, 14".
Filipenses 3:13, 14".

