Quando a palavra escrita fala mais



sexta-feira, 12 de abril de 2013

Enquanto



Hoje o texto não é meu. E quando é, não é, pois vem das impressões em torno, de você, dele, dela, de nós, de quem não conheço, de quem virá, do que imagino ser, do que gostaria que fosse, do que é. Enfim.

Mas hoje, enquanto ainda não me vem a inspiração, enquanto a respiração falha, enquanto expirar por vezes é difícil e enquanto o frio me paralisa - gosto muito do sol -, o texto realmente não conseguirá ser meu. Vem do Osório, que trouxe o Chico. Aliás, quantos grandes Chicos por aí. O Buarque, o Sá, o Diaz. Anysio, Lopes. E outros que a limitação da autora não permite citar. Enquanto isso, enquanto aquilo, o Chico me leva com ele.


Me Leva Contigo

Me leva contigo nesse teu embalo
Na tua certeza eu confio e até me calo
Eu quero com prazer, amor, a tua pureza
Esconderei bem fundo de minha alma
Tua riqueza

Me leva contigo pro teu aconchego
Na tua firmeza eu encontro meu sossego
Me leva já daqui, amor, e não demoras
Eu quero em teus braços ver passar eternas horas

Cadê o medo? Hoje bem cedo ainda senti
Mas tudo acabou, na fé do amor me envolvi
Bola pra frente, a alegria não tem preço
A tristeza chorará, pois perderá meu endereço.


Autor: Chico da Silva, via Osório. Obrigada por esse sorriso discreto que saiu daqui agora, Osório.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Entre a Consolação e a Augusta



Atrevimento meu escrever sobre uma cidade que tão pouco conheço – se é que se pode dizer conhecê-la minimamente –, mas numa São Paulo de tantas, a minha singela versão sobre a democrática megacidade, credenciada pela própria experiência, não seria tão atrevida assim. Acrescentar relatos a ela seria redundância, mas desenhar as minhas  próprias vivências e sentimentos ali, não, ainda que em 30 linhas.

O roteiro seria quase todo cumprido. Não nos culpemos por querer ficar mais meia horinha na cama no dia seguinte à chegada tardia no hotel e após a inesperada experiência notívaga de um restaurante ao qual se paga 65 reais na noite bem servida. Quem quiser experimentar o estabelecimento comercial em questão - “Sujinho” - não tardará em concordar comigo.

Atraída pelas inúmeras possibilidades da cidade, difícil pretender-se tanto em pouco tempo. No quadrilátero da Estação da Luz, a Pinacoteca e o MLP encantam; ela mais; ele, com a precisão e ternura de seus escritos e tecnologia interativa, torna tudo mais verossímil. Até mesmo o verde e flores do Parque ao lado, agarrados à vizinhança de esqueletos de concreto e aço dessa cidade de excessos e contrastes, parecem inusitados. Imagens fortes e entrelaçadas que nos pegam de surpresa, em um momento despretensioso, em que 'só' se intencionava tomar um café.

Dispenso o Bom Retiro, 'bom' para eles, 'retiro' para mim. Quantos reais retirados mesmo? Esquece, meu! 

A imperativa ida ao Mercado Municipal, alimentada por esta apaixonada por cozinha, cheiros, sabores e 'alguma' cerveja, revelou-se graciosa. E foi andando em meio aos ameaçadores camarões que, em busca de um presente para o estômago, veio a surpresa não só com o famoso sanduíche de chouriço, mas com o arrebatador Henrique do licor, da pinga e do mapa, desenhado ali mesmo.

Após o riso incontido da noite que se seguiu, do carpaccio (desta vez cru! vejam só!), dos drinks espanhóis, do pedaço de pizza do Pedaço de Pizza (tudo indicação do Henrique) e da calmaria das instigadoras e emocionantes obras do MASP - que nos proporcionam a colheita de uma dose diária de esperança e nos convidam a vencer os obstáculos apresentados por essas terras supostamente duras e pela dureza de nossa alma - é que me despedi, até a próxima garoa.


Ouso discordar de alguns.
Existe amor em São Paulo.


 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Balanço



Prestes a encontrar-me com o fim do ano, a expectativa me conduz à necessidade de alguma análise e me volve aos anos 80, quando eu achava que detinha qualquer autonomia e que o futuro seria inevitavelmente 'bem-sucedido', sem saber, obviamente, o significado real disso, além de um certo conforto financeiro e de alma.

Precocemente, desde aquela década,  sofri e sorri intensamente. E para quem acha que não se deve “arrepender do que fez, mas do que não fez” (pra mim o pior bordão já dito, além de brega), digo, sim, arrependi-me, e se pudesse voltar atrás teria feito diferente, dito mais 'nãos', evitado algumas pessoas (leia-se muitas), mas vivido com alguma intensidade, ou não seria eu.

De tudo, fica que a vida que desejei conduzir – o contrário é ainda mais pobre – distanciou-se muito da vivida e somente este ano pude de fato experimentar o verdadeiro tudo (verdadeiro para mim, obviamente): um pouco de encontro entre o discurso e a prática, o grande encontro entre uma mãe e um filho, o encontro com o amor. E complementando a ideia do parágrafo anterior, teria esperado, me esperado, nos esperado, mas a vida não foi - não é - assim.

A polissemia da vida - seja a desejada, seja a vivida - abre-se para a polissemia do amor, ainda não totalmente compreendido, levando-me a indagar sobre qual a relação entre o discurso que ele, amor, profere, e o lugar que de fato ocupa na vida das pessoas, sua essencialidade. Mais: qual a relação entre alguém que acreditamos amar e o objeto (cruamente, 'objeto' mesmo) do nosso amor. Entre mim e coisa; entre coisa e mim. Qual?

A maior descoberta concretiza-se agora, ao finalmente banir o discurso ideológico “envolvente, convincente, mas cheio de vazios” (Chaui) e entender a importância da harmonia entre palavras e ações, o verbo e o acontecer, o moderno e o tradicional, a existência e a resistência, a singularidade e as condições em torno dela, o individual e o coletivo, o ideal e o real, o hoje e o ontem, a vivência e o caminhar, a liberdade e o respeito, o medo e o passo a ser dado, o que já se viveu e a exclusividade do que há por vir, o planejado e o vivido, a 'norma e a vida' (nas palavras de Pelá), entre o que se autodenomina de 'pouco' e que me complementa ricamente, e como complementa... 

Não precisam ser antagônicos, apesar da dicotomia apresentada no texto, não precisam mesmo.

E voltando aos anos 80, rumo a 2013, o balanço que fica vem da certeza não mais de que os últimos 25 anos me credenciaram para alguma coisa, mas me proporcionaram o recolhimento de algumas palavras, o avançar de algumas certezas e o retirar do véu que me separava da compreensão do movimento da vida, que inevitavelmente existe, ainda que tentemos contê-lo. Descobrir-se inteiro é libertador e descobrir o amor pelo outro, sem boicotes, é transformador. Experimente.

Acredito em Deus e em remédios, necessariamente nessa ordem. Mas acredito em pessoas. Essa é outra descoberta. Se não acreditasse, não amaria. E amo. Como amo. 


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Em prol deles



Em tempos de aparente igualdade entre os sexos, sou finalmente rendida à ideia de que ela é, de fato, aparente. Com isso, relaxo. Não há mesmo o que fazer para ajudá-los e queria poder.

O ideal massacrante de masculinidade, impresso por características intrínsecas e sociais, ganha corpo, ao contrário do que eu poderia imaginar e contra a minha vontade. Coragem, bravura - ainda que destituídos da violência explícita exigida em tempos de guerra - habilidade, força, destreza, ordem, poder, decisão, conquista, virilidade, experiência e comando são coisas insufladas nos andreios, persistindo como imperativos morais e sociais, ao ponto de nos 'estruturar' socialmente e nos desestruturar individualmente. Ao mesmo tempo, sensibilidade, atenção, carinho, doçura, lealdade, cuidado, sorriso, perfume, pontualidade... e ainda tem que ser músico e ter 'pegada'? Perfeito (pra quem?).

E por mais que se insista nas tentativas psicológicas e literárias (autoajuda não é propriamente literatura, vai...) de amenizar a hegemonia da masculinidade imposta a eles, ela implaca como uma ideologia, ratificando, cada vez mais, as diferenças naturais entre homem e mulher. E elas (nós) pagamos por isso também.

Ai daqueles (coitados dos meus pequenos) que não se arranjam nos papéis masculinos prescritos e se atrevem em direção diversa, a caminho de um novo sentir, desencadeando um verdadeiro desajuste entre a sua vivência e o modelo: coisa boa, mas doída.

(Parêntese no ‘sentir’: homem sensível não é homem que usa creme. Isso se chama ‘nicho mercadológico’. Homem que usa creme é no máximo um homem com pele ressecada, jamais sinônimo de homem sensível. Entendam isso, meninas).

E por uma tendência também social, enquanto a menina identifica seu pai, irmãos e professor de matemática como homens, obviamente em graus e percepções diferenciadas, o menino só vem a descobrir que existe uma coisa chamada ‘mulher’ ao se afastar exatamente de sua mãe e irmãs (em direção, inicialmente, às primas, diga-se de passagem), sem qualquer tempo razoável entre a descoberta e a vivência, a vivência e a opção, a opção e a maturação.

De tudo que fica deste breve ensaio que tenta se solidarizar com eles e assumir algumas características e imposições que nos fazem diferentes, e muitas vezes pesados, é que naturalmente se compreende a frase dita por Chico Sá (filósofo, escritor, jornalista, humorista, nordestino, tudo de bom): homem e mulher não foram feitos para dar certo; foram feitos para amar.

Boa sorte e amo vocês, homenzinhos da minha vida, desse jeito todo.


terça-feira, 19 de junho de 2012

A constância de um ECG


Uma conversa entre quatro mulheres, no ambiente de trabalho, pós-almoço, não poderia dar em outra coisa. O tema é 'casamentos e separações'. O contexto: aguentar tudo e seguir? chutar o balde de vez? ponderar, quando se é possível ponderar? ou viver num seguir-chutar, seguir-chutar interminável? É quando a colega faz a pergunta:

__ Ludmila, você se acha inconstante?

Penso... Respondo: 

__ Sou assim: vou até onde é possível ir. Tento, erro, acerto, alerto, brigo, imploro, insisto, afasto e novamente tento, erro, acerto, alerto, brigo, imploro, insisto. Isso dura no máximo 3 anos (já durou 3 dias também), desde que se tenha muita coisa em jogo. Como não sei jogar, decido. Depois, não tem volta. Se desistir, após muito tentar e para não ser massacrada, é ser inconstante, então, sim, sou sempre inconstante, o que faz de mim alguém constante.

 __ Oi?????

( __ a resposta era pra ser "sim" ou "não"?)

Foi quando, para me ajudar (definir-se não é fácil), intervém - nada mais, nada menos - que A cintilante estagiária (sempre eles):

__ Você é um eletrocardiograma, então. Sobe e desce em uma constante. Até porque, se ficar reto, morreu.

Ufa! Isso. Simples assim. 

Obrigada, Sílvia. Não há melhor definição para o que sou: um (im)perfeito eletrocardiograma vivo, bem vivo...




sexta-feira, 27 de abril de 2012

Entre amigos


As noites entre amigos nunca foram tão boas. A combinação pessoas afins x comida x palhaçada x música é irresistível. E quando digo ‘pessoas afins’, neste caso, tratam-se das mais diferentes possíveis, que compuseram ao menos duas experiências sublimes nos últimos dias.

Na mesa pra 7 estão a de 44 (a amiga supreendente), a de 39 (a autora, autoamiga), o de 41 (o italiano sorveteiro, segundo a agenda do meu celular – quase apanhei por isso), o de 34 (o diferente-desconfiado – ‘defina diferente’, diz ele), a de 21 (estagiária modelo, nos dois sentidos), a de 16 (filha modelo, também em todos os sentidos) e o de 22 (futuro jurista/futuro músico/futuro intercambista – e que belo futuro...).

Nessa reunião mágica de ingredientes feitos de diferenças, afinidades, costelas ao barbecue, chás e outras bebidas, a dobradinha de chope e de caipirinha antes das 20h nos obriga – estupidamente, reconheço – a golear rápido. Seguramente não é a falta de dinheiro para o pagamento individual dos drinks após as 20h que nos incita, mas a economia é uma excelente desculpa para a inquietação do grupo.

E o bom de ter 39 anos e de sair de casa com o único objetivo de estar entre amigos é, entre outras coisas, não se preocupar se os caras da mesa ao lado nos olham insistentemente por testemunhar – não acreditando – a tentativa de junção de joelho-palmas-testa para o teste da bebedeira ou se pela beleza das moças; ou moços, sabe-se lá.

O fato é que esse papo de que ‘quem tem amigos tem tudo’ é realmente relevante e, apesar de eu ter sido generosamente abençoada durante toda a minha vida por amizades duradouras, pacientes e verdadeiras, as vivências recentes ainda surpreendem, a começar pelos tantos que se oferecem para ficar com o Luca, em verdadeira disputa, somente para contribuir com os meus planos de sair de casa e me divertir, relaxar, o que muitas vezes acaba somente nisso, planos:

__ Oi, como está tudo aí?
__ Ele está bem...
__ Ah, é? E o que é isso que estou ouvindo? Ele está bem mesmo? (alguém se lembra do Zezé, o bebê de “Os Incríveis” nas cenas finais do filme? então...).
__ Lud, não se preocupe, vou dar uma bola a ele e ficará tudo certo! Vá se divertir!
__ OK! (campainha: “vem mamãe...”).

E não é que, finalmente, ele ficou bem mesmo (dormindo sobre o peito do meu pai, um velho amigo...) e possibilitou o relato a seguir?

A noite, que começou 24h antes com uma amiga-irmã, caiu em boas palavras, poucos goles, alguns risos, boa música e um louco pentagrama de 5, ops 3, ops 5 linhas novamente, nos olhando. Caiu – ou, ao contrário, ascendeu – em amigos, em mim, neles, nelas, em todos nós.

Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, 
que são os nossos chatos prediletos.
(Mário Quintana)


sábado, 21 de abril de 2012

Um ano de muito amor

Queridos,


no link FESTA DO PAIOL - Luca, 1 aninho (na coluna direita do blog), as fotos da celebração de um ano da vinda do Luca na minha vida e, de consequência, um ano de gostosura, alegria, sorrisos, pezinhos lindos, cachos loiros e muitas, muitas bolas espalhadas. 





quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Dá pra piorar, ah, se dá...



Há quem diga que quando uma mulher resolve mudar o seu cabelo, principalmente o corte, é porque algo nela, internamente, está mudado, ou prestes a mudar ou intencionado a mudar. Não é o caso.

Durante a gravidez e até pouco após um parto, é sabido que os cabelos de uma mulher, em razão da maior atividade hormonal, ganham corpo, brilho, volume. Alguns meses após, porém - agora pela queda dos hormônios e não em razão de anestesia (acontece também com as parturientes naturais, não anestesiadas) -, os cabelos caem, e como caem.

A miséria, no meu caso, foi pouca não, porque miséria pouca é bobagem. A reposição dos cabelos em queda, dada pela natureza (que pensou estar me agradando), veio em forma de uma espécie de franja medonha e inapropriada, nascendo por debaixo da minha franjona grande, na altura da boca, partida ao meio e que cai para os lados (como na fotinha do blog). Os cabelinhos novos, até mais escuros que os anteriores, apesar de ambos intocados por tinta, são desiguais... E a leitora pensa: "ué, isso não é bom? cabelos naturais escuros e desiguais, tipo 'desfiado', sem precisar ir ao salão?" Pois é, é que você não viu a coisa.

Vou desenhar. É realmente importante:



O fato é que após mais de 2 meses assim, fixei-me no espelho, decidida a exterminar a parte maior ou aquilo que restava da antiga franjona para uniformizar o troço.

Foi quando na última tesourada, mas já acompanhando o processo e antevendo o resultado, chega  Samuel, O Implacável:

___ O que você feeezzzzzzzzz!!!!!!! Eeeeccccoooooo!!!!!
___ Samuel, por favor, eu não preciso de mais. Já não basta?
___ Tente passar o gel e dividir ao meio pra ela não ficar caída pra baixo.
___ Aaahhhh, tááá!!!
(silêncio.... nos olhamos pelo espelho)
___ Deixa como tava, mãe... quando o cabelo secar vai melhorar...

(meia hora depois volta Samuel, O Irredutível)
___ E aí, mãe?... Nooosssaaaaa!!!!! Eeecccooooooooooo!!!!! Não melhoroouuuuuu! É por causa disso que não deixo mais você cortar o meu cabelo!

(olhar de "sai daquiiiiii!!")

Mara Maravilha. Esse foi o resultado, pra quem se lembra dela.

Isso porque eu não contei que em alguns minutos visitaria a esposa do meu primo, o que não seria problema se a sua família inteira não estivesse lá, presenciando a minha franja. Não bastasse, a criatura (esposa de primo é uma meerr... mesmo) me pede para imitar a 'Janete' (amiga da Valéria-Valdemar), após ter visto eu fazer isso meses antes. É claro que franjinha não combina com Janete na presença de um bando de gente.

E como parente-incoveniente-pouco também é bobagem, encontro-me com a Vládia que imediatamente cantarola ao me ver: 
"__ Como uma deeeuuuusaaaaaaa, você me manté-é-émmmmm".

Um chanel pra consertar? de bico maior e desbastado na nuca? um repicado geral?
Abuse do gel e deixe crescer, porque dá pra piorar, e como dá...




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

365 dias de mim



Hoje fez sol na terra do sol em que chovia há 2 meses. Presente pra mim.
E fez riso no rosto de muitos.
E teve parabéns só pra mim e pra minha mãe, mas teve. Com velinha.
E em todos os dias tive sorrisos.
Em todos eles tive a cama grande do quarto grande da casa. Acordo muito e fico por lá cheirando minha mãe.
Tive ela todos os dias e todas as noites ao meu lado. Todas, todas, todas. Nenhumazinha sem ela.
Algumas vezes ela até tentou sair sem mim, mas voltava antes da hora. Aaaahhhhnããããomãe...

E teve ‘buu’ de muitos tamanhos e cores. De vez em quando uma rola para debaixo do sofá. Choro.
Teve, ainda, vovó e vovô, que pra mim é tudo ‘vovô’, o de bigode feio.
É que a vovó é mais que uma palavra. Olho pra ela e só vou, quero e abraço.

E teve a tia Vládia e o tio Adriano, novo na família, e que fala ‘Arturrrr’ .
E tem a priminha Martina, dos dois, que ainda não nasceu, mas já vem.
Tio Paulinho, tia Raquel, tia Lusmar, sempre comigo.
Teve o Guigui, deixando eu brincar com os carrinhos dele.
Tive Pitucha e a Chiara me protegendo. Uma de um lado, outra de outro, igual a esses travesseiros aqui do meu lado agora.
Teve elas latindo e me acordando. Minha mãe não gosta:  “__ Pra foraaaaa!”

Tive meu pai por alguns dias e minha irmã mais nova também. Mas a outra maiorzinha me viu nascer!
Tive meu irmão grandão quase todos os dias. 
Quando alguém fala o nome dele, olho pr’aquela porta. Cadê? Volta da escola!!
Tive meu outro pai, o tio Ton, me chamando de corozinho.
Tem a tia Carol também, que deixa ele me chamar de coró. Eu não sou coró...
Tenho a ‘De’, que a minha mãe chama de ‘nega’; mas ela é muito braaaaanca!.... não entendo...
E tenho esse tanto de gente grande que adora cuidar de mim.
Tia Sandra, tia Adriana, tia Marcela, tia Márcia, tia Verônica, tia Luciana, tia Súlia, tio Eduardo. Tô tonto...

Tenho Deus. Tenho tudo.

E agora tô muito cansado... o dia e o ano foram cheios...
Vou dormir e sonhar com mais um,
E nesse que vem, quero tudo de novo e um pouquinho mais...



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sobre amar

“Com que facilidade conjugamos o verbo amar... e estamos constantemente andando atrás dele, como um complemento qualquer. Mas quando é que realmente podemos ter a certeza de que amamos alguém? porque muitas vezes amamos a maneira que nos sentimos na presença de alguém. Confundimos amor com amor próprio (ou a falta dele) e, nesse caso, separar o trigo do joio é uma tarefa árdua, muito árdua.” (Falabella)

A certeza vem dos encontros que transmitem paz, lealdade e gratidão. Aqueles feitos de paixão, com um quê de ternura; de agitação sadia a dois, suficiente, mas de estabilidade; de desejo e um simples abraço; de improvisos gostosos no meio do caminho, mas de projetos e responsabilidade;  gestos, ações e meros olhares.

O amor não ocorre a qualquer preço, não se constrói  “doa a quem doer”, posto que é bom. Exige respeito, preserva o outro – não por meio da ocultação, mas do cuidado, etimologia ‘curare’. Trata com parceria e não assume várias formas, mas uma só, a da transparência. Faz por merecer o perdão dispensado, não abusa. Não se apoia no outro como uma boia salva-vidas que, ao ser constantemente mirada, impede de tocar o barco adiante. Fora isso, não é amor.

Não se mente por amor, nem ao destinatário do suposto amor, nem a qualquer destinatário que seja. Aliás, a mentira é verdadeiro furto, pois quando mentimos para o outro roubamos dele a chance de conhecer a verdade e optar por ela. E o sinônimo disso é covardia,  manipulação. Anota aí, Aurélio.

Não se fere por amor. Não se omite em nome dele. Ao contrário, revela-se. O amor acalma, apazigua a alma agitada. A perdida? Essa, só com um descortinar de si. Dificilmente encontra-se, no outro, o que está perdido em si mesmo.

E, por mais decepcionante que seja ao amor exclusivamente romântico, amar é também escolha, disposição e disponibilidade Decide-se por um amor rico, grato, generoso. Opta-se pela paz e pela realização de uma vida construída em parceria e não por uma odisseia vazia, de vai-e-vem sem direção. 

E em razão de tudo isso, respondendo, de uma só vez, sobre o meu amor e o meu amar a tantas pessoas que não compreendem a minha dor e a recusa a paixões rasas, não me recuso ao amor. Ele será encontrado no caminho natural. Proponho-me a amar e bem sei que o amor, como um rio, por mais que se tente represá-lo, reencontra o seu curso.

O tempo agora é de renúncia – e como ela dói. E como liberta, para que se volte a conjugar o verbo amar sem banalidade, sem boia salva-vidas, generosa e responsavelmente.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos... A renúncia é libertação. Não querer é poder.” Fernando Pessoa.