Em tempos
de aparente igualdade entre os sexos, sou finalmente rendida à ideia
de que ela é, de fato, aparente. Com isso, relaxo. Não há mesmo o
que fazer para ajudá-los e queria poder.
O ideal
massacrante de masculinidade, impresso por características
intrínsecas e sociais, ganha corpo, ao contrário do que eu poderia imaginar e
contra a minha vontade. Coragem, bravura - ainda que
destituídos da violência explícita exigida em tempos de guerra -
habilidade, força, destreza, ordem, poder, decisão, conquista,
virilidade, experiência e comando são coisas insufladas
nos andreios, persistindo
como imperativos morais e sociais, ao ponto de nos 'estruturar'
socialmente e nos desestruturar individualmente. Ao mesmo tempo,
sensibilidade, atenção, carinho, doçura, lealdade, cuidado,
sorriso, perfume, pontualidade... e ainda tem que ser músico e ter 'pegada'?
Perfeito (pra quem?).
E por mais
que se insista nas tentativas psicológicas e literárias
(autoajuda não é propriamente literatura, vai...) de amenizar a
hegemonia da masculinidade imposta a eles, ela implaca como uma
ideologia, ratificando, cada vez mais, as diferenças naturais entre
homem e mulher. E elas (nós) pagamos por isso também.
Ai
daqueles (coitados dos meus pequenos) que não se arranjam nos
papéis masculinos prescritos e se atrevem em direção diversa, a
caminho de um novo sentir, desencadeando um verdadeiro desajuste
entre a sua vivência e o modelo: coisa boa, mas doída.
(Parêntese
no ‘sentir’: homem sensível não é homem que usa creme. Isso se
chama ‘nicho mercadológico’. Homem que usa creme é no máximo
um homem com pele ressecada, jamais sinônimo de homem sensível.
Entendam isso, meninas).
E por uma
tendência também social, enquanto a menina
identifica seu pai, irmãos e professor de matemática como homens,
obviamente em graus e percepções diferenciadas, o menino só vem a
descobrir que existe uma coisa chamada ‘mulher’ ao se afastar
exatamente de sua mãe e irmãs (em direção, inicialmente, às
primas, diga-se de passagem), sem qualquer tempo razoável entre a
descoberta e a vivência, a vivência e a opção, a opção e a
maturação.
De
tudo que fica deste breve ensaio que tenta se solidarizar com eles e
assumir algumas características e imposições que nos fazem
diferentes, e muitas vezes pesados, é que naturalmente se compreende
a frase dita por Chico Sá (filósofo, escritor, jornalista,
humorista, nordestino, tudo de bom): homem e mulher não foram feitos
para dar certo; foram feitos para amar.
Boa sorte e amo vocês, homenzinhos da minha vida, desse jeito todo.




