Recife, cidade feliz
Na poesia não se contradiz
Pois vive diariamente com maestria
Não importando se de noite ou de dia
O Recife vive, ama e respira poesia...
(Mercedes Pordeus)
__ Não gosto, acho feia a cidade. É violenta também e fede. Escolhi esse litoral para passear porque meu primo mora aqui.
Foi essa a resposta malcriada – e que mais tarde me traria sério arrependimento – que dei às moças que me perguntaram se eu já conhecia Recife e se gostava dele. Elas, que gentilmente me ajudavam na chegada ao aeroporto dos Guararapes com o carrinho de malas enquanto eu segurava o bebê com um braço e duas bolsas com o outro, decaíram na expressão. Remendei: “ mas isso é o que eu acho; muitos amam a cidade; são de São Paulo? Acho que vão amar”... ?!??!
A minha experiência vivida com o Recife, 12 anos antes, foi traiçoeira e ingênua à medida que o tempo simplesmente...passa! Passou para a cidade e principalmente para o meu olhar míope. Não que parte desses problemas citados não exista mais, mas as cidades, feitas de gentes, são bem mais que isso.
Viadutos não me impressionam; não sou uma turista voltada à modernidade, muito menos advinda de trânsito caótico. E aí ‘sobram’ as praias próximas à capital, sobram Galinhas e Cabo de Santo Agostinho, sobram – e como sobram – Carneiros; sobra história, sobra cultura e sobram, mais que tudo, os Pernambucanos.
Os sucessivos tapas-na-cara começaram no restaurante, enquanto eu seguia lépida e fagueira em busca da última mesa vazia do Paranóia. “Que bebê lindo”, “bebezinhooo?”, “ô, fofo”, “gracinha”, comentários na pequena trajetória desde a calçada até a mesa, agora menos cobiçada após tanta simpatia que naturalmente me retardou. Mais comentários durante a estada e outros tantos na saída, mas foram eles, os de lá, quem merecem comentários.
Nos dias seguintes vários ‘maridos e pais’ surgiram carregando o bebê e toda a nossa tralha em Carneiros e no city tour. Guias, garçons, vigilantes do bar da praia, gerente: foi um tira-foto, um empurra-carrinho, um vigia-roupas na areia enquanto eu entrava no mar com o bebê, que dormiu sobre o meu peito imediatamente. Não era pra menos, após tanta brisa e alento. Mais emoção, difícil de ser contida com isso aqui: “moça, quer ajuda para por água dentro do barquinho do bebê? ou melhor, perdão... deixa eu ajudar você, por favor”. ‘Deixo’, Valdomiro.
E se por um lado não sou uma turista voltada ao moderno, por outro não sou a típica ‘garota de praia’. Gosto de city tour e de pegar todas as linhas dos tourist bus, formas práticas e eficientes de conhecer os principais cantos da cidade, já que os passeios autônomos são quase sempre direcionados pelo nosso limitado conhecimento e pretensão; gosto de museus, ditos por uns de ‘coisas velhas’; gosto das ladeiras de Olinda, da tapioca da Sé, do forro de filé, de bolo de rolo; do "ti" e do "di", diferentes do meu; e das cores do frevo. Gosto de Luis Gonzaga, de Dominguinhos, de Chico Science, de Alceu e até de Reginaldo Rossi, a meu modo. Amo Lenine, de todos os modos. Gosto de Paulo Freire, do Manuel Bandeira; de Arlete Sales e da brilhante Hermila Guedes. Adoro o Nanini. E amei o Valdomiro, o garçom mais carrancudo e sensível que já conheci.
__ Se gosto do Recife? Escolhi esse litoral para passear porque meu primo mora aqui. Mas volto em breve, por tantas outras razões.
Na casa do meu primo tem luz do dia às 5 da manhã
Tem Calulu, a calopsita corintiana
Tem cardápio variado, chique e fácil de fazer
Tem a Lu que o executa
Tem cadeirinha que balança e casinha feita de almofadas de sofá
Tem visita que faz bagunça
Tem mar ao lado, céu azul acima e salão de beleza ao fundo
Tem tapioca no café da manhã e suco de laranja
Tem paella especial em uma noite comum
Tem cama de casal com colcha branca
Tem o primo Fernando, tem a Lorena e tem a mistura deles: a bailarina Manu!
E na casa do meu primo tem Pernambuco, bem na janela...